O Brasil e a síndrome de Estocolmo – II
Redação DM
Publicado em 11 de julho de 2017 às 22:42 | Atualizado há 9 anos
“No início, nós é que orientamos os negócios e os mantemos em nosso poder; mas, frequentemente, uma vez colocados em ação, são eles que nos guiam e nos arrastam”
(MONTAIGNE, 1533-1592)
Quem sabe os amantes da sabedoria (philos sophos) geraram mais e mais sementes com a mesma vocação de mirar o céu e amar o luminoso, parte visível não palpável aos céticos do sagrado que busca razão no numinoso. É sabido as prostitutas (com respeito à categoria) do poder a roubar a Nação geraram, nas últimas gestões e mandatos, incontáveis mazelas socioeconômicas e políticas com a mesma vocação que têm de enganar o leigo, o eleitor e, por meio da mídia comprada em vendida, grande parte da classe média em declínio vertical vestida de verde-amarelo que meses atrás se orgulharam em bater panela teflon nas sacadas de edifícios erguidos a sonhos de consumo da faixa escrava do capitalismo remunerada até dez salários mínimos, gente fofoca nos escândalos midiáticos, também no escandaloso sexo do vizinho, ambos, em atraso com a taxa condominial.
Sem saber escolher que loucura beber mal sabem que a boa e ciente loucura da filosofia de Platão fez sair da caverna o mito do girassol, quando uma ninfa de nome Clítica (Kléos-Glória) enamorou-se pelo deus Hélio, o Sol. O brilho e o calor de sua luz a fascinavam, ela acompanhava o brilho do astro, quando a flor murchou, deixou sementes que herdaram da mãe flor o amor à luz, buscando-a por toda a vida. Este ciclo se repete continuamente, por isso, estas sementes conseguiram penetrar no coração humano dando nascimento a um novo mito: seres humanos amantes da luz e suas qualidades de sabedoria, amor e generosidade. Se os mitos se vivem, é uma afronta à dignidade humana a matilha jurídica endossada pela política pelega de interesses que assalta o País propor ao operário o sucesso, sabendo que comerá o fruto do seu suor a migalhas a partir da extinção dos direitos trabalhistas.
Os mais influentes vampiros da Nação usam capa preta, outros preferem o terno e gravata, crachá, todos vestem a corrupção a perpetuar a desigualdade, esconder da luz a semente da sabedoria que ensina: “Deve-se tratar como igual àqueles que no passado foram tratados desigualmente”, encerrando-se uma “ideia de compensação pelas injustiças passadas” (Vieira, 2001, p. 236). A pobreza exerce uma influência nefasta em todas as etapas da vida humana, desde a concepção até o túmulo. Se os mitos vivem, o ser social não deve procurar a luz no fim do túnel mas dentro de si, pelo viés da arma democrática exposta no voto livre e soberano: “Povo meu os que te chamam bem-aventurado, esses mesmos te enganam, e destroem o caminho dos teus passos. O Senhor entrará em juízo com os anciãos do seu povo, e com os seus príncipes: porque vós tendes comigo a minha vinha, e a rapina feita ao pobre se acha em vossa casa. Por que razão subjugais vós debaixo dos pés o meu povo, e moeis a pancadas os rostos dos pobres?, diz o Senhor Deus dos Exércitos” (ISAÍAS, cap. 3: 13).
Enquanto os cães ladram e a carruagem passa, o elevador de serviço avisa da diferença de cor na pele, do poder de consumo entre ricos e pobres, dos mais de 60 mil assassinatos anuais nas cidades brasileiras, do esgoto das casas correndo da vergonha, a céu aberto, em mais de metade das casas no perímetro urbano em grande parte dos Estados. A justiça no Brasil, desde a sua “descoberta”, assim como a democracia perene e em estado de alerta, não acontece para quem vive dos restos da burguesia, do milagre do santo ou do perdão por parte do poder de fato. O fardo histórico das bestas de carga, ao contrário delas, dorme eternamente no berço esplêndido daqueles que surrupiam o País, depositam a comissão da delação em paraísos fiscais, nada sabem, nunca viram e continuam a confiar plenamente na justiça da Terra de Cabral.
Mas “para toda realização há um preço, para todo alvo há um oponente, para toda vitória há um problema, para todo triunfo há um sacrifício” (WARD, s/d). Essa Justiça que se apequena e a mídia direcionada, manipuladora, transformam o tema da vez – a corrupção – em liberdade de bandido da classe média alta, engravatado, a custo de quem levanta cedo e trabalha para pagar da maior carga tributária do mundo. A natureza da sociedade abomina o vácuo, a moderação e o messianismo traduzem um Executivo, Judiciário e Legislativo que há tempos abdicaram de representar o povo. A maioria que os assiste anda a encher os bolsos ao empregar compadres, esposas, amantes, filhos e netos numa lambança sem fim noticiada e exposta nas bancas e redes sociais, todos os dias. Foi-se o tempo em que carregador de mala era trabalho informal na rodoviária.
Lá fora e, bem distante do nosso mundo, enquanto o terrorismo individual persegue os últimos representantes do direito Divino, sob o véu do terrorismo de Estado, prepara-se este mesmo jogo para destruir definitivamente o direito internacional na própria raiz das sociedades multiculturais em sua diversidade. A técnica covarde da tomada do poder pela invasão e guerra visando a realização dos fins últimos para tomar lugar na afirmação do mundo capitalista remete ao profeta, anarquista e revolucionário, o visionário Isaías: “Ai dos que estabelecem leis iníquas e escrevendo, escreveram injustiças para oprimirem aos pobres em juízo e fazerem violência à causa dos fracos do meu povo, para as viúvas serem a sua presa e roubarem os bens dos pupilos. Que fareis vós no dia da visita e da calamidade que vem de longe? A quem terei vós enquanto recurso? E onde deixareis a vossa glória para não ficardes encurvados debaixo do peso das cadeias, e para não cairdes com os mortos? Depois de todos esses males não se apartou o seu furor, mas ainda está alçada a sua mão” (cap. 3).
Aparentemente negativa, já que nada cria, a revolta é profundamente positiva, porque revela aquilo que no homem sempre deve ser defendido. “A força vem quando abraçamos a fraqueza e nos vangloriamos dela” (Paulo de Tarso).
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, escritor, filósofo, mestre em Serviço Social/doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)