O brilho de dona Suzana, minha sogra
Redação DM
Publicado em 30 de junho de 2016 às 01:51 | Atualizado há 10 anos
Pessoas iluminadas, quando passam pelo mundo, deixam valiosos ensinamentos, lições de bondade, fraternidade, amizade, desprendimento, carinho e amor. Quando partem, permanecem conosco, instalam-se em nossos corações devido ao brilho da sua chama. Assim aconteceu com minha sogra, Suzana.
Filha caçula de uma família de nove irmãos, teve infância privilegiada, brincando no pomar da sua casa à sombra das árvores frutíferas, plantadas por sua mãe, ou debaixo das duas frondosas paineiras que no mês de maio se enfeitavam de flores que, ao balançar do vento, desprendiam-se e caíam no chão, formando um tapete cor-de-rosa.
Quando dr. Carlos Dayrell chegou a Morrinhos, vindo de Belo Horizonte para ocupar o cargo de promotor de Justiça, encantou-se com a beleza e a ingenuidade de Suzana, que retornara do Rio de Janeiro, onde concluíra seus estudos no Colégio Imaculada Conceição de Maria. Logo, pediu-a em casamento.
Após a aprovação para concurso de juiz de Direito, dr. Carlos foi designado para a comarca de Tocantinópolis. Partiram para a cidade maravilhosa em lua de mel. De lá, embarcaram em um navio, contornaram a costa brasileira, chegaram ao Pará, pegaram um barco, deslizaram nas águas do Rio Tocantins até desembarcarem na cidade que os aguardava para começarem uma nova vida.
O que fazer com os lindos vestidos, bolsas, chapéus, sapatos e luvas encomendados no Rio de Janeiro? Suzana foi à luta, enfrentou dificuldades, contraiu malária, porém, jamais se deixou abater. Foi sempre fiel companheira do marido. Depois se transferiram para Caldas Novas, Itumbiara, para, finalmente, instalarem-se em Goiânia.
Construíram uma casa na Rua 3, defronte para os fundos do Jóquei Clube, justamente onde a cidade terminava, bem em frente ao Córrego dos Buritis. Os amigos diziam que eles iriam criar patos lá. O Setor Oeste não existia. Nos fins de semana, podiam-se colher pequis e saborear gabirobas. Nas proximidades, escutavam-se barulhos dos aviões que aterrissavam no aeroporto ao lado.
Dona Suzana criou os filhos nessa casa. Estudaram no Ateneu Dom Bosco. Incentivados pelo pai, dedicavam o tempo livre em práticas esportivas, entre elas: basquete, tênis, futebol, natação; também desfrutavam da parte social do clube. Recebia com carinho os amigos dos filhos. Sempre servia lanche, almoço ou jantar, dependendo do horário. Ninguém partia sem compartilhar um lugar a sua mesa. Hoje, adultos, eles se recordam saudosos da sua hospitalidade.
Católica fervorosa, era assídua frequentadora da Paróquia de São João Bosco. Desde cedo, introduziu os filhos na igreja, ensinando-os a respeitar as pessoas como seres humanos e a seguirem os princípios de honestidade, de ordem e de disciplina.
Tratava todos da mesma forma, desde o feirante até o governador do Estado. Dotada de grande sensibilidade, procurava ajudar as pessoas necessitadas. Aos amigos, dedicava especial atenção. Escutava suas queixas e tentava amenizar suas penas. Tinha nos lábios palavras de bondade. Generosa, agradava, oferecendo presentes, sabonetes e flores.
Dona Suzana era alegre, engraçada e espirituosa. Ria com satisfação do malfeito, principalmente quando os fatos ocorriam entre os membros da família. Vaidosa, estava constantemente às voltas com cremes, perfumes e talco.
Dedicou sua vida ao marido, aos filhos e aos amigos. Conheceu netos e bisnetos. Aos domingos fazia lautos almoços com enorme variedade de deliciosos pratos. O mais disputado era o rosbife com batatas francesas e ervilhas. Servia uma variedade de doces; provava de todos, prazerosamente.
Adorava cachorros, para os quais escolhia nomes interessantes, como Lifú, Zumbi, King, Suingue e outros. Ocupava-se, pessoalmente, dos seus animais. Cuidava dos banhos, da alimentação e do bem-estar deles. Eram loucos por sua dona. Se o portão ficava aberto, seguiam-na rua afora, chegando ao cúmulo de sentarem ao seu lado na mesa da comunhão.
O tempo passou, dona Suzana entrou em um processo de esquecimento. Gradativamente, outros sintomas surgiram. Passou por várias fases até chegar ao ponto de não reconhecer o marido e os filhos. Permaneceu assim por 15 anos, aproximadamente. Bonita, mimosa, forte, ficou acamada vários anos. No dia 21 de junho do corrente ano, prestes a completar 99 anos, partiu ao encontro do Senhor.
Segundo registros, Guimarães Rosa proferiu pela primeira vez a frase: “As pessoas não morrem, ficam encantadas” em um discurso em homenagem ao jovem colega de Medicina Oséas Antônio da Costa Filho, irmão de dona Suzana, velado no salão nobre da faculdade em Belo Horizonte. Posteriormente, diria a mesma frase quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, referindo-se ao patrono da Cadeira que iria ocupar.
Prefiro dizer que as pessoas não morrem, viram estrelas. Quando olhar para o firmamento, vou focalizar aquela mais brilhante. Se ela estiver piscando, saberei que dona Suzana lá das alturas estará velando por seus entes queridos que ficaram aqui na Terra. Assim, querida, você jamais será esquecida.
(Alba Dayrell, membro da Academia Feminina de Letras e Artes(Aflag), da União Brasileira dos Escritores(UBE) e professora aposentada da UFG)