O burro preto de Dô Azevedo
Redação DM
Publicado em 12 de agosto de 2016 às 02:44 | Atualizado há 10 anosQuando morava em Belo Horizonte, sempre que podia, ligava pro amigo Sisenando Azevedo. Digo “sempre que podia”, porque aquele tempo o interurbano já custava os olhos da cara. Amigo velho de infância e morando Sisenando aqui em Goiânia, os raros bate-papos que mantínhamos eram balsâmicos, atopetados de recordações dos banhos na Biquinha, dos passeios que fazíamos pelas rodeanças lá do Duro nos tempos de ginásio. Naquela época em que morava em Belo Horizonte, o Sisenando, geralmente muito bem informado, era quem me dava as notícias daqui. Agora, virou-se a moeda.
Pois bem, num dos últimos bate-papos telefônicos, sempre às carreiras (por conta de se pagar pra falar), espanando a poeira, desengavetando causos do tempo do onça e conversando lérias das mais diversas, veio a lume a figura do velho Sebastião Teixeira, tabelião do Cartório de Órfãos e Sucessões de Conceição do Norte, hoje do Tocantins.
Sebastião Teixeira sabia de cor o dicionário, escrevendo com palavras tão difíceis, que era necessário um “pai dos burros” de lado, pois o homem era uma coisa rara em matéria de falar e escrever difícil, capaz de botar no chinelo o próprio Luís de Gôngora, que criou essa escola da palavra complicada. E mais: quando escrevia para alguém, usava um bloco inteiro, numa só carta. Não eram, porém, só seus amigos e parentes que desfrutavam o privilégio de decifrar suas cartas: Sebastião Teixeira andou escrevendo suas quilométricas missivas para ministros e até para o presidente da República nos tempos getulistas. E consta que andou recebendo resposta e até honrarias.
E o assunto com Sisenando foi caminhando para outros nortes, entremeando política, ação discriminatória que assombrava o povo do mato, botando em polvorosa o povinho acostumado a considerar-se dono do taquinho de chão cultivado e a considerar título qualquer escriturazinha de pé-de-pau.
Mas, no demudar da conversa, Sisenando coçou a língua até imiscuir no assunto geral a história do burro preto de Dô Azevedo.
Dô Azevedo, pai dele, Sisenando, tinha um burro sem nome, conhecido apenasmente pela cor, que vivia na fazenda “Chuva de Manga”, a cinco léguas lá da Conceição.
Vez por outra, tenho dado exemplo de animais que parecem até humanos, como uma vaca que conheci e que, floreando respingos de ficção, incluí num conto que me valeu um prêmio literário na Faculdade de Letras da UFMG e outro na Academia Ribeirão-pretana de Letras, constando no meu livro “Besta-fera” com o nome de “A Vaca Cristalina”.
Tal qualmente minha vaca, o burro preto de Dô Azevedo parecia ter parte de gente no seu comportamento quase humano: Dô Azevedo podia botar no lombo do seu animal uma carga em Conceição e soltá-lo, que ele ia bater na fazenda, atravessando morros, escalando pirambeiras, saltando aguadas e vadeando córregos e riachos. Podia-se escanchar uma criança no burro preto, que ele ia levá-la na fazenda, sem riscos de se distrair pelo caminho com alguma touceira de um capim qualquer.
O mais interessante é que o animal, quando estava meio seco de carnes, com alguma pisadura ou precisando recuperar-se, sumia, passando longa temporada desaparecido. Mas quando a suculência do pasto de primeiras águas lhe conferia fortaleza e dava-lhe aspecto sadio e disposto, o burro preto “apresentava-se” para o dono, como que se oferecendo para o serviço.
Animal de montaria que foge de roça e vai bater no seu pasto é comum demais, e ali no Engenho, fazenda de meu ex-sogro, existe um jegue de Edirson que, se levado numa viagem qualquer fora da fazenda, foge à noite, deixando o camarada a cheirar rabicho, como diz Carmo Bernardes. Se era solto numa roça, ele caçava um jeito e passava pela cerca, nem que fosse deitando-se e arrastando-se por baixo do primeiro fio do arame; se peado, roía a peia; se amarrado num moirão, roía a corda. Um dia, indo a uma pescaria (e desconhecendo as artimanhas do istucioso bogue), estranhei ver o pobre animal amarrado a um pé de sambaíba, mas com a cara para riba, com coisa de palmo e meio de cabresto reteso. E indaguei se era castigo; Edirson, então, explicou que era o único meio de segurar o maniento do jerico.
Ainda deve existir muita coisa aqui pelos matos pra se contar, muitos animais que se apegam aos donos e que parecem ganhar uma espécie de humanidade com o convívio humano. E um exemplo está em dois legítimos vira-latas que eu tinha lá em casa, que, a exemplo de nossos telefones, só faltavam falar.
Enquanto na cidade grande vemos a violência campear em cada esquina e a incompreensão deitar normas de conduta a grande parte da população, até que a gente fica aliviado com a indolência do sertanejo lá no mato.
Inobstante a irracionalidade animal, ainda existe muita gente que deveria tomar umas aulinhas com o burro preto de Dô Azevedo, lá nos confins de Conceição do Norte, pra ganhar um pouco de humanidade.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])