Brasil

“O celular ou a vida!”

Redação DM

Publicado em 27 de julho de 2016 às 21:58 | Atualizado há 10 anos

Tempos bons em que se perdia a bolsa e se ficava com a vida. Logo em seguida a polícia chegava e dizia ao bandido: Teje preso! Como quase todos portam algum bem, os criminosos estão mais ousados. Dificilmente encontrarão alguém sem nada que possam tirar. Pessoa com míseros trocados do ônibus é coisa do passado. O celular é portado com maior assiduidade do que a carteira de identidade. Então, vamos à luta! E, preferencialmente, sem luta.

Mesmo antes de a dentista ser queimada em seu consultório por ter na conta apenas R$30,00, e do rapaz que, ao chegar à porta de casa, entregar o celular passivamente, e, ainda assim receber um tiro na cabeça, à vista de todos, que é preciso ter algo para oferecer, uma espécie de pedágio. Motoristas ou pilotos de moto levam algum dinheiro para acalmar os meliantes, e não podem titubear e nem manifestar gestos bruscos ou insegurança. Levam tiro, corte de caco de vidro ou faca ou ácido no rosto. A lei é severa.

Na semana passada dois casos de roubo de celular seguido de tiro, mais uma vez alertaram para o perigo de portar e como também de não portar o que os ladrões querem. Um rapaz entrou em luta corporal com um malfeitor que lhe surrupiou o celular em via pública do seu bairro. Inconformado, correu atrás, e perdeu feio, pois levou um tiro no tórax. Na mesma ocasião, uma mulher recebeu um tiro de raspão no abdome, quando, após sua filha entregar o aparelho, ela irritou o criminoso ao afirmar que não tinha o que ele queria.

Ainda que o apego ao celular seja um afeto relativamente recente, é fácil explicá-lo. Dentro dele estão a vida social, fraternal, afetiva, profissional e coisas que valem muito, mas, por óbvio, a vida vale mais. A crueldade anda em alta, de tal forma, que quem rouba não quer levar apenas um bem material, quer humilhar, carregar a dignidade, arrancar tudo, inclusive o direito de viver.

A perda do celular é como perder um cachorro de estimação. A pessoa toma um susto ao ver subtraído o seu precioso bem, do qual não consegue se desgrudar, nem mesmo para tomar banho. Fica sem ação, apalermado, um bobo completo. Depois das considerações iniciais da perda do objeto, vem a questão afetiva, e a sensação de abandono. Todo o histórico está lá, fotos, contatos, segredos. A substituição imediata não resolve o problema, assim como outro cachorro da mesma raça não substitui o anterior.

Celular que cai na água ou é roubado leva a uma sensação igual. O vácuo vai pouco a pouco tomando assento e as coisas voltam ao normal. Segredo, senha, dados fechados, bloqueio, impedimento de credenciar nova conta para aquele aparelho que tem uma numeração única, como o chassi de um carro, não parece intimidar e nem impedir a sanha por esse objeto de desejo. O que fazer? Sentar e chorar, e depois chamar a polícia. Alguns tentam contato com receptadores e, como não adianta nada, compram outro celular para começar tudo de novo. Até o próximo ataque. Pelo andamento dos hábitos, é melhor ter algo para entregar a quem exige, tem pressa, está alterado, possivelmente sob efeito de drogas, em situação limite e tem uma arma, química, branca ou de fogo. Não é um engano. Isso é um assalto!

 

(Mara Narciso, médica e jornalista)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia