O coitado
Redação DM
Publicado em 20 de agosto de 2016 às 00:33 | Atualizado há 10 anosRiomivaldo acredita que no Brasil não existe inflação, tudo está controlado, nada subiu de preço nem arroz, feijão, carne, cesta básica… tudo está como a propaganda do governo afirma. O aumento dos impostos no setor produtivo em nada influência nos preços para o consumidor. É a nova promessa de mais um milagre econômico brasileiro. O dinheiro rende muito na poupança alheia, cresce, endurece, até baba, de tanto lucro que dá. Para os outros.
Judyscleison atesta a honestidade dos políticos, gente honesta que cumpre o que promete, tem palavra. Corrupção no governo não existe! Agora até tem reaparecido aquele pessoal que toda véspera de eleição relembra que ele existe. Sabe como é, são quatro anos com o pessoal trabalhando muito, justamente por isto some. Agora relembra da gente e vem chamando de amigo e dando tapinha nas costas. Políticos, tudo gente trabalhadora, com carreira definida, que de tanto trabalhar resolveu doar parte de seu tempo para o bem coletivo. Judyscleison jura que não existe político egoísta, de gente querendo se dar bem.
Jandiscleide adora ir à comício, é de graça, é seu passatempo predileto. Assistir político, viajar de ônibus para ver autoridade discursar é chique. Tem vez que até lanche eles dão. Fala com orgulho que já viu de perto todo mundo, vereadores, prefeito, governador, presidente. Sempre é chamada porque aprendeu com uma amiga que foi colega de auditório do Silvio Santos, a bater palmas na hora certa, depois da autoridade discursar. Aperfeiçoou a técnica com os anos, hoje além de bater palmas grita, assobia e faz cara de contente.
Mychelly adora televisão. Tudo que nela passa é verdade. Virou notícia, passou no jornal é lei. Novela não tem personagem fictício e, programa de auditório, retrata a verdade nua e crua sem apelação. Ela até vem praticando tudo que o doutor bactéria ensina. Só acha estranho que seus filhos depois disto tudo tenham se tornado alérgicos a tudo.
Homo sapiens seria a definição correta para a espécie humana. Digo seria, se o fato correspondesse à terminologia. O animal, Às Vezes, e tão somente isto, pensa. Mas, na maior parte das vezes, o cérebro apenas serve como ponto de apoio as orelhas. Burrice, apatia, preguiça, comodismo, tudo mistura-se nesta vertente contemporânea de inatividade.
Ser vítima, na atual conjuntura, é direito político e regra social aceita e desejada. O papel social mais cômodo. Ser coitado virou profissão, com direito a regra de convívio, sindicato, associação, regimento interno. Coitado não é mais um indivíduo que sofreu um coito – foi enrabado sem direito a orgasmos. Hoje, ao contrário, ser um coitado, um pedinte, esmoleiro virou sinônimo de identidade. Uma identidade absolutamente patológica acostumada a migalhas, acomodada, perversa, tirana, improdutiva, vivente de um assistencialismo barato, que troca programas sociais como renda aos cidadãos, por votos. O coitado tem muitos benefícios.
Todos na vida, num certo momento, passamos por dificuldades. Receber certa ajuda é natural. Porém, acomodar-se tornando uma crise, em estilo de vida é algo doentio. Especialmente porque um indivíduo assim, nesta vida, arruína todas as possibilidades de realização e crescimento, vivendo semelhante a um parasita. Come, bebe, dorme, procria, vivendo instintivamente, totalmente sem objetivos, sem perspectivas a não ser as que lhe propicie mordomia, sombra e água fresca. Neste sentido, o coitado torna-se um preguiçoso por opção.
O estilo de vida “está ruim, mas está bom” é outro processo comum a um coitado. O prefeito, governador, vereador, presidente: é ruim, mas está bom, e assim a vida vai perdendo seu sentido, em plena apatia. Por fim, acaba que hoje existe uma superlotação de coitados que suplicam quotidianamente, ávidos por mais um pequeno coito, desde que sua parte seja lembrada!
(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista,pesquisador em saúde mental, psicólogo)