O cowboy
Redação DM
Publicado em 5 de agosto de 2016 às 02:22 | Atualizado há 10 anos– Gibão, meu velho! Que bom vê-lo após tantos meses.
– Verdade. Faz uma data.
– Tudo bem com você?
– Daquele jeitinho que você sabe.
– Coisa boa. Continua invocado em ser cowboy?
– Totalmente.
– Peão no bruto?
– Firme e forte. Sou macho de pegar boi na unha.
– Ainda usa o chapelão na cabeça, bota de couro e cinto com fivela dourada?
– É o uniforme, doutor. Não abro mão. Com esse negócio de rede social, eu estou bombando no meio rural. A gente tem que ser valente.
– Pois é, Gibão. Soube que tem sido mesmo atuante. O rei do selfie agrário.
– Eu acho bom.
– Você sabe ao menos montar a cavalo?
– Coisa à toa para mim. Cresci na fazenda, sabe? Tenho muita experiência. Levantava antes do galo cantar para ajudar na ordenha do gado. Apartava aos bezerros das vacas. Tocava boi longas distâncias no meu alazão. Sei tudo de rebanho. Para mim, é café pequeno.
– Você sempre gostou de reforçar isso.
– Claro. É minha história, cara.
– Gibão, você conta tudo com muita naturalidade. Nem parece invenção.
– Mas não é prosa de cristal, não, senhor. Vivi tudo isso. Se pudesse, seria fazendeiro e moraria na roça. Quero trabalhar muito para ter condições de comprar meu ranchinho.
– Um ia você conseguirá.
– Deus abençoe.
– Voltando ao lance do cowboy…
– Certo.
– Tenho visto cowboy para tudo quanto é gosto. Tem o da estrada, o do asfalto, o da poeira…
– Tem um monte mesmo. Tudo famoso.
– E você? É cowboy do quê?
– Sei não. Nunca pensei nisso.
– Precisa achar um tipo de cowboy que se pareça com você.
– Tipo qual?
– Talvez um daqueles do filme “Brokeback Mountain”.
– Não conheço esse filme. É bom?
– Para quem gosta de cowboys contemporâneos, pode ser uma boa opção. Como você vive em redes sociais…
– Beleza, vou ser um cowboy desses aí. Como que se fala mesmo?
– “Brokeback Mountain”.
– Isso aí. Os bichos devem ser brutos a dar com pau.
– Por aí. Posso gravar o que você está dizendo?
– Por que você está rindo?
– Por nada. Admiro sua valentia.
– Cowboy tem que ser assim. Não amolece por pouca coisa.
– Certeza.
– Não entendo sua gargalhada. Esse trem está errado.
– Acho que está é muito certo, Gibão.
– Sobre o que esse filme é mesmo?
– Eu disse. Sobre um tipo de cowboy que tem crescido a cada dia.
– Isso não me cheira bem. Mostra para mim o trailer no seu celular.
– Por quê?
– Porque eu não sei escrever em inglês. Para de rir, caramba. Estou ficando preocupado.
– Tudo bem. Veja aqui.
– A paisagem é interessante. Os caras são cowboys. Tem jeito de durão. Mas…
– O quê?
– Peraí! O que aquele cowboy está fazendo com o outro?
– O que você acha?
– Não. Deus me livre disso. Quero ver isso não.
– Por quê?
– Não dá certo. O filme é pesado demais…
(Victor Hugo Lopes, jornalista)