O dia em que morremos um pouco
Redação DM
Publicado em 13 de dezembro de 2016 às 01:22 | Atualizado há 10 anosAssim que fechei a porta, Lurdinha me perguntou:
– O senhor ficou sabendo do pai que matou o filho?
Respondi que não. Aí ela contou que ontem o pai matou o filho e depois se suicidou porque não concordava com o comportamento do filho de ocupar as universidades.
Da cozinha fui para o quarto pensando na loucura humana, no quanto estamos doentes. Como pode o pai matar o próprio filho, como pode inverter o instinto natural de proteção, não somos nós, os pais, que damos nossas vidas para salvar os nossos filhos?
Na cama liguei o celular e fui procurar notícia do fato. Após ler as matérias dos jornais on line, fiquei ainda mais perplexo com os detalhes da tragédia que não é somente familiar, é uma tragédia que nos atinge por completo, que aflige e inquieta, que mexe bem lá no fundo da alma da gente. É como se de nós emergisse uma voz : estão vendo o que vocês são capazes!
Fiquei então sabendo que no seu último ato o pai se debruçou sobre o filho. Como se estivesse querendo dizer algo no ouvido do filho. Ou será que não falou?
Antes da cena final teria pedido perdão? Teria dito o pai que o monstro que nele habitava foi mais forte e que teria, finalmente, vencido?
Fui então tomado por um sentimento de pena. Não só do filho, mas também do pai, da relação entre eles. Fico aqui imaginando o assombro no olhar do filho ao ver seu próprio pai desferindo aqueles tiros causando uma dor nunca antes sentida, nunca antes pensada que partiria de alguém que um dia deu colo e carinho. Que um dia livrara o filho de uma picada de abelha.
Esse episódio será esquecido pela sucessão dos dias, superado por outros, sequer foi capaz de comover as pessoas que andam tão ocupadas, sem tempo para maiores reflexões.
Mas quando o pai mata o filho é como se nós tivéssemos também levando um balaço, como reconhecendo nosso fracasso enquanto ser humano. É preciso domar o monstro que carregamos dentro de nós, adormecido está, não vamos despertá-lo nem alimentá-lo.
(João Batista Moraes Vieira,analista judiciário do TRE-GO)