O dia seguinte à votação do impeachment
Redação DM
Publicado em 5 de abril de 2016 às 03:04 | Atualizado há 10 anos
Relatar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff é o maior desafio da minha carreira – um dos maiores de minha vida. A mim foi confiada a missão de analisar os fatos que mobilizaram o País nos últimos meses e decidir se são consistentes o bastante para justificar o afastamento da autoridade máxima da República sem me deixar contaminar pelas paixões.
O Brasil vive um momento de efervescência política pouco comum. Compara-se, até pela similaridade dos fatos, ao processo que resultou na deposição do ex-presidente Fernando Collor. As ruas estão apinhadas de manifestantes, ora vestidos de verde e amarelo, as cores da nossa bandeira, ora vestidos de vermelho. As panelas tiritam em horário nobre, as buzinas esgoelam-se nas avenidas e um juiz ganhou feições de herói pelas mãos de parcela da população que deseja o fim do governo do PT. Outros, em contrapartida, reputam por tentativa de golpe quaisquer tentativas de abreviar o mandato da presidente.
Se por um lado o envolvimento da população no noticiário político é positivo, porque afinal de contas o exercício da democracia não pode restringir-se ao momento do voto, é inegável que o acirramento do debate contamina o juízo e ameaça a sobriedade que nós, deputados e deputadas, senadores e senadoras, temos de preservar até o fim deste julgamento. Como dizia Ulysses Guimarães, política não se faz com o fígado, posto que não é função hepática.
Ao assumir a missão de relatar o pedido de impeachment, firmei com os meus pares e com a população brasileira o compromisso de produzir um relatório imparcial. Fiel aos fatos. Comprometi-me a não escolher um lado, como se estivéssemos em uma partida de futebol, e a não me deixar levar por partidarismos. Mas é claro que ouço a voz estridente das ruas. Impossível não ouvi-la, e estaria mentindo se dissesse o contrário.
Independente do que decidir o Congresso Nacional, é importante que o Brasil supere a crise e vire a página. Como aconteceu na época do ex-presidente Collor, o que a gente vê por aí é um grande número de empresas suspendendo investimentos até que a poeira baixe em Brasília. O desemprego superou marcas históricas e o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu. O País está em compasso de espera até que a gente decida se seguiremos em frente com Dilma ou com Michel Temer. O fato é que, com um ou com outro, desse jeito não dá para continuar. O Palácio do Planalto precisa reconhecer que é necessário cortar gastos públicos e, acima de tudo, combater a corrupção que corroeu as entranhas do Brasil.
O País precisa se reconciliar consigo mesmo ao final deste processo. Juntar os cacos, superar animosidades, se unir em torno de um só projeto administrativo. E é justamente por vislumbrar este novo momento, que haverá de vir mais cedo do que a gente imagina, que me impus o dever de produzir um relatório equilibrado, sério e ponderado. Que não dê margem para contestação judicial. Que seja tratado com respeito pelos meus colegas deputados quando chegar ao plenário, para a grande votação e que simbolize o começo de um novo tempo no Brasil.
Jovair Arantes, deputado federal pelo PTB e relator da comissão especial que examina o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff