O diagnóstico de um guru
Redação DM
Publicado em 8 de dezembro de 2016 às 02:01 | Atualizado há 10 anosTem dias que “a gente se sente como quem partiu ou morreu” (na expressão poética de Chico Buarque) e a primeira providência seria a de procurar um médico, um psicanalista ou um guru. O médico clínico pedirá, logo de início, exames complementares à anamnese para avaliação do equilíbrio ou desequilíbrio do nosso organismo. O psicanalista, por sua vez, nos indagará de problemas existenciais e quererá descobrir, por um motivo qualquer, se carregamos ou não algum trauma da infância. Já o guru, surpreendentemente, nos auscultará a alma buscando sinais de causas remotas em nossas existências pretéritas para avaliar esse sentimento de ausência que poderá, no fundo, ser apenas saudade de nós mesmos.
O caso clínico
Comecemos pelo caso clínico, que levou o paciente XIS a procurar o médico YPSILON tendo por queixa uma retenção urinária que sofrera em consequência de uma queda que lhe inflamou gravemente a próstata (o que poderia ser um dos motivos da tristeza masculina). Nessas circunstâncias, enquanto aguarda o atendimento médico, é natural que o paciente fique impaciente, pelo fato objetivo somado ao fator subjetivo de eventual sofrimento de culpa pelas extravagâncias que cometera, como a buscar razões para uma autopunição.
Quem primeiro lhe apareceu na clínica para uma conversa consoladora, certamente não foi um psicanalista, mas um guru. Um senhor bem apessoado, grisalho, olhar penetrante e sorriso fácil, chamando o paciente à parte e, pacienciosamente, lhe insinuou que havia uma manifestação espiritual envolvendo-lhe a aura e que, com sua permissão, lhe revelaria ser a imagem benfazeja de sua mãe que o acompanhava, embora sabendo que ela vinha de outra dimensão.
Carma e não trauma
Naquele instante, olhando em derredor, o paciente sentiu uma vibração de paz preenchendo os corredores da clínica, como um sopro de harmonia interior que o transportasse a um espaço cósmico, sentindo uma voz íntima: aqui serás curado. Após o atendimento médico, paciente e guru voltaram a se falar rapidamente, em tom recíproco de afinidade e gratidão, como se fossem velhos conhecidos.
O caso clínico em objeto, que poderia ter resultado num trauma, restou diagnosticado, não pelo médico mas pelo guru, como um carma a ser cumprido pelo paciente em foco que saíu dali resignado, sabendo de suas dívidas contraídas no plano da espiritualidade. As próximas visitas seriam divididas, na mesma clínica, entre o médico e o guru: do primeiro para os procedimentos de mister, do segundo para as revelações do além.
Na verdade, nossas doenças têm causas físicas, mentais ou espirituais, sendo sua cura de inteira responsabilidade do próprio interessado. O nome do paciente (bem como da clínica) ficará enigmático, mas o guru (leia-se médium) que atende ali, ou alhures (a quem interessar possa), é o bioquímico e analista clínico, doutor Sélim Jorge (isso mesmo, filho de árabe), que sabe que o melhor médico do mundo chama-se Jesus.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])