Brasil

O dinossauro do Cerrado

Redação DM

Publicado em 8 de novembro de 2016 às 01:02 | Atualizado há 10 anos

O título acima não é meu, mas da Folha de São Paulo, que com ele publicou artigo na última 5a feira (03/11) assinado pelos jornalistas Cleomar Almeida e João Pedro Pitombo.

Como se vê, trata-se de uma percepção não apenas local. O país inteiro sabe da existência de Iris Rezende e sua saga de sobrevivência polítca, mesmo se acompanhado de reveses aos sonhos mais altos.

Sua resiliência comprova-se, não sem precisar de expor-se à beira de sombreamentos duvidosos e questionáveis por um público que cresce cada dia mais. Se por um lado Iris mostra uma formidável capacidade de resistir e perseguir seus ideais, o que é louvável, mostra também seu lado escuro, que é o fato de que, para sobreviver, ele precisa de carne e sangue frescos, que ele mói e suga dos desavisados à sua volta. Ele também sabe extrair os extertores de esperança dos eleitores que sucumbem ao seu estilo chantagista de dizer que falou com Deus ou de dar adeus à vida pública. Em ambos os casos, a comoção visa a ocultar a intenção.

Compartilho a tese de que, aos trancos e tortuosamente, Iris, que um dia foi o homem das Diretas do Cerrado, hoje pende sua balança mais para o lado negativo que para o propositivo, em se tratando do homem público e seu rastro na história. Seu currículo corre o risco de passar de credor a debitário.

Se Iris contribuiu na versão pequi para tirar o país do marasmo dos generais, também contribuiu para o conservadorismo na medida em que nunca, depois dele, aceitou outra renovação. Ele nutre, digamos assim, uma permanente ojeriza aos novos ares e trata de os encanar antes que estes se tornem ventanias.

Contra o visível brilho de sua trajetória temos o fato irrefutável de ser ele o principal causador do enfraquecimento da cena política em Goiás por quase duas décadas e assim, consequentemente, evitar a salutar alternância de poder em nivel estadual que, afinal, se mantém nas mesmas mãos desde 1998. Foi principalmente graças a Iris e à sua fixação em ser sempre o primeiro que o seu PMDB entrou em declínio, enfraquecendo o jogo político e tornando monocordias as disputas eleitorais.

Também graças ao lado escuro de Iris é que vivemos atualmente sob a pior administração entre as capitais do Brasil, pois ninguém discorda da verdade que foi Iris quem convidou, primeiramente para ser seu vice, e depois elegeu como seu successor, o prefeito Paulo Garcia, classificado em recente pesquisa em último lugar no ranking IBOPE dos prefeitos que atuam nas capitais.

E agora, vejam só, se por um lado Iris acaba de ter uma vitória na urnas exemplar e digna de enriquecer qualquer currículo ao se eleger pela 4a vez prefeito de Goiânia, por outro lado (seu lado escuro!) está trazendo com ele um vice que se esparrama em contradições e virulências, não demonstra ter sensibilidade e tampouco visão de gestão e, ainda por cima, propôs e defende a bolsa-arma, pela qual o cidadão rceceberia do governo R$1 mil reais para comprar a arma de fogo de sua escolha e ter com quê sair por aí atirando. É, sem dúvida alguma, um retrocesso sem precedentes na luta contra o desarmamento da população e, principalmente, na luta contra a violência que grassa e aumenta cada vez mais, graças a gestores afins.

Por estas e por outras, seja, por suas ideias datadas, por sua luta pelo poder sem medir custos e por suas companhias sob a linha da coerência, podemos antever uma administração sofrível do alcaide Iris Rezende.

À Goiânia dos problemas crescentes vem agora se somar a preocupação de dias terríveis, seja com um prefeito belicista que vai assumir na eventual ausência de Iris candidatando-se ao governo estadual, sua fixação, ou seja com um Iris à mercê da luta do poder pelo poder e que nem um pouco lembra aquele jovem que há 51 anos atrás assumiu a Prefeitura de Goiânia em plena sintonia com seu tempo de enxadas e mutirões.

Tentando demonstrar ter aprendido a lição de custear o investimento no setor cultural, graças ao exemplo de Marconi Perillo desde seu primeiro dos quatro mandatos de governador, mesmo assim Iris é (e será) sempre Iris. O que ele ainda dará à cultura é o mero circo que se arma para distração (um de seus projetos passados, que deve se repetir, como tudo que ele faz, é a edição de centenas de livros em um único evento, deixando os verdadeiros escritores nivelados com meros pretendentes ao ofício e terrificados com seus exemplares debaixo da cama, uma vez que a edição não ocorre pensando também na sua distribuição e no incentivo à leitura).

Podemos escrever, que o alcaide vem aí: impossível de, desta nova velha administração, sair alguma coisa que não a manutenção de um conservadorismo que se lustra mas não engana mais ninguém. Salve-se Goiânia.

 

(Px Silveira, presidente do Instituto Arte-Cidadania)

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