O eleitor sabe que o voto é ouro seu – III
Redação DM
Publicado em 24 de agosto de 2016 às 02:36 | Atualizado há 10 anos“A desobediência é o verdadeiro pilar da liberdade. Os obedientes serão escravos.”
(Thoreau, filósofo, ativista anti-impostos)
A disputa eleitoreira reacende o debate sobre o destino das cidades ofuscado pelo ambiente eleitoral contaminado pela crise moral, política e ética à qual sobrevive o País. Ao contrário do que pregam pastores organizados em partidos de plantão é preciso deixar o divino de lado e partir para o enfrentamento das mazelas que açodam a qualidade de vida aprisionada à exploração sem vergonha nem limites por parte do mercado imobiliário que expropria o trabalhador em sua cidadania, falácia dos direitos transformados em fetiche do capital. Se a razão moderna se estabelece pela busca da verdade, urge o desmascaramento da ideologia estruturada no mundo “aparentemente seguro” – discurso pós-modernista e expressão da filosofia burguesa que comanda atores sociais, dá as cartas que decidem a vida dos desfigurados urbanos.
Sob os holofotes da corrupção a busca pelo poder do engodo açoita a população ativa presa às indústrias das multas no trânsito, nos terminais do transporte urbano que, plagiando o século passado, trata a gente de hoje como se apartava o gado. As cidades infladas no superpovoamento sufocam homens transformados em instrumentos da servidão pós-moderna, submetidos e imersos no mundo do desenvolvimento da economia monetária cuja consequência imediata é o dilaceramento histórico–aceito enquanto ‘condição humana’,–quando a burocratização da práxis se introduz na vida humana e a economia de mercado torna fetiche as relações humanas, promove a divisão capitalista do trabalho, fomenta as protoformas de exclusão e torna necessidade a hierarquia.
Centelha das mudanças sociopolítica e econômica o voto eletrônico clareia desejos por valores, aproxima o futuro, propõe mudanças no mundo que já não nos pertence por pertencer aos nossos netos. A conjuntura é retrato social, carrega peso de ouro, exige a reflexão que coloque as barbas de molho quanto a partidos que choram a renúncia de ladrão, aposentadoria de coronel, aliam-se ao inimigo para adular o patrão, clamam o santo para vestir o capeta. O teatro desta campanha, mais uma vez, despida de qualquer ética exige ao eleitorado transformar a crise conjuntural na porta da mudança, pois, conta a história que o mundo muda, a cada cem anos, no calor das revoluções passivas e/ou ativas quando a valoração do suor derramado pela força de trabalho torna-se ameaça à fonte de lucro incessante do capital estruturado na alienação da classe-dos-que-só-vivem-do-trabalho perpetuada nos parcos salários de quem sente na pele a exploração e expropriação aprofundadas.
Na sua grande maioria as ovelhas efêmeras, modernas, educadas, alienadas e desumanizadas sabem das leis do cajado que, na contramão do sol, cega e não guia, escora o ditador na figura politiqueira do coronel e do latifundiário, no cassetete da polícia e no conchavo de última hora, endemia da moral de meia boca que nunca foi sinônimo de política mas sim da conivência e conveniência chocadas no quintal dos infames. O multimilionário Willian E. Simon sugere que “se você realmente quer ajudar aos pobres, deve então ajudar primeiro os ricos. Eles são os únicos que vão investir e construir mais fábricas, criar empregos”. A palavra “ajudar”, advinda da corrente positivista da caridade propalada pela igreja, denota o sentido de “apoiar”. Quando o autor utilizou a expressão em um comitê do Senado imperialista americano, exigia menor intervenção estatal para que os empresários pudessem “produzir mais e comercializar mais, promover maior prosperidade”.
A classe dos miseráveis subjugados à magia do capital “auxilia e ajuda” aos ricos, todos os dias, e, a partir da periferia metropolitana e rural, já às quatro horas da madrugada, ao meio-dia e na hora extra que alcança a meia noite. Massa de manobra e exploração também “ajuda ao rico” ao promover o Estado paralelo que move o mercado informal a partir do comércio de mercadorias malhadas e ilegais–pesadelos modernos judicializados. Magra, engorda a fila sem fim do (des) emprego terceirizado, sonha com o barraco na periferia na certeza da vala no cemitério destinado aos “pobres que ajudam os ricos”, palpável troféu alcançado pelo pobre durante sua existência material diferenciada entre ricos e pobres, abençoados ou avarentos, segundo Belchior, um lugar “onde a terra lhe seja leve”.
O eleitor sabe do valor de seu voto que vale muito mais que um pedaço de pão. O resultado das urnas pode promover maior distribuição de riquezas socialmente construídas, desde que enterre, de uma vez por todas, o voto de cabresto, o (des) favor, a reeleição daqueles que se perpetuam no poder exercendo mais de oito mandatos, profissionais do ego a serviço de si mesmos na sesmaria goiana tocada pelos “donos do poder”. Enquanto os dias voam o desemprego atinge a marca histórica de 13 milhões de desempregados e o trabalhador assiste suas contas acumularem. Pior que a realidade, azeda, as parciais eleitorais avisam do chicote e da algema enquanto preferência do eleitorado. Alimentado a fandangos de milho e outros cereais um protótipo de pássaro já não voa, briga em segundo lugar na gaiola da gestão por maior representação nos quadros do poder tocado a cifrão.
A artimanha marqueteira do golpe no golpe finge que foge para a roça e come um quiabo enquanto faz sabão. A “pedido do povo” propõe o mutirão que pinta meios-fios e cobra caro o IPTU no próximo talão. A cena da disputa politiqueira goiana desenrola-se a partir do plágio do que fizeram em Brasília, os achincalhadores da Nação. A cidade aparece nos gráficos da Unesco como a vigésima nona mais violenta do mundo, e, a mais desigual da América Latina em relatos do Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal. Não será nada fácil a luta do David eleitor contra os Golias da politicalha instalada. A revolta e decepção será o pulo do gato destas eleições municipais e a construção de um projeto coletivo de cidade passa pela indignação, também a conscientização da massa eleitoreira quanto à falta de direção do barco das gestões, até aqui, desgovernado e preso ao milagre do santo, à proposta das algemas e à espora da política tradicional.
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, filósofo; escritor; mestre em Serviço Social/PUC-Goiás; mestrando em Direitos Humanos/UFG)