Brasil

O eleitor sabe que o voto é ouro seu

Redação DM

Publicado em 17 de agosto de 2016 às 02:53 | Atualizado há 10 anos

O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado insiste em jorrar.” (Raul Seixas)

Engendrada pela ideologia neoliberal que aposta na estrutura de um Estado apequenado, a pobre política de compadres, enriquecidos por ela, impede reais chances de alcance dos direitos básicos da sobrevivência estabelecidos na Constituição Federal de 1988. A “maior participação” do trabalhador na expansão e acumulação da riqueza, de poucos, domina a estratégia de mercado terceirizado, avilta a equidade, fraciona a igualdade o que incrementa a desigualdade entre as classes quando as riquezas socialmente produzidas escondem-se feito cartas em mãos hegemônicas articuladas nos bastidores política tradicional, pelega, nepotista.

A celeuma da moda efêmera torna fetiche capitalista as necessidades mais básicas da população priorizando o iPhone ao naco de costela na panela. O lucro incessante, determinado pelo capital, óleo do modo de produção concorrencial que proporciona muito a uns gatos pingados e gordos, quebra e fragmenta o mercado formal, mina o poder de inclusão da grande maioria, em idade ativa, relegada ao exército de reserva, instalada no mercado informal expressão da “questão social” retratada na massa de manobra alienada a baixos salários quando a navalha da imediaticidade perfila e molda uma existência banalizada e frugal de sujeitos estreitados por uma realidade exposta na vitrine da exclusão ou incapacidade do usufruto social.

O cotidiano do medo denuncia seres mascarados pelo fetiche do consumo, entre eles, e, em tempos modernos, a vaga de emprego. O proletário é ator expropriado diariamente pela luta de classes travada na arena de um sistema de produção excludente, cuja política de inclusão, fictícia e temporária, amarra no rabo do senso comum a política de assistência. O infindável carnê inflado a juros extorsivos cobra a dignidade escrava dos juros fomentadores do capital nacional e transnacional. O jogo econômico, viciado, faz o capital gerar ainda mais capital, enriquece um por cento da população mundial, fomenta a barganha das verdades, retrata a corrupção generalizada, sangra uma democracia perene presa às garras de velhos lobos saqueadores da Nação. A vergonha de um povo, manipulado pela mídia sem vergonha, tem preço, e, desavergonhada, escraviza um coletivo pobre, efêmero, emancipado na mentira do corre-e-morre pós-moderno e virtual.

Os acidentes de trânsito, e, no trabalho, crescem a uma proporção alarmante estampada em números que simbolizam a guerra não declarada. Há uma necessidade crescente em acumular bens descartáveis ao preço do endividamento das classes menos abastadas representadas por aposentados, e toda sorte de sujeitos sem face destinados à vala rasa do cemitério que delimita a vida, a morte e os limites que distinguem o centro da periferia. A gênese desta escravidão moderna dá-se a partir da alienação da classe proletária ao trabalho infindável e mal remunerado, ferramenta histórica destinada à perpetuação da mão de obra barata que atiça a acumulação do dinheiro e consequente poder do rico benevolente que alimenta e acaricia a fraqueza do pobre.

Expressão da realidade social em constante movimento, o contexto socioeconômico, histórico, expõe as raias do capitalismo vivo cujas ideias remontam à crítica destilada pelo alemão Karl Marx, ainda no século XIX, com relação ao “poder do dinheiro que continua aumentando a miséria e transformando a razão, pela via do fenômeno da acumulação, quando anexa novos estratos de artesãos e pequenos empresários arruinados pela concorrência, incorpora novas categorias de trabalho anteriormente não assalariadas”, trabalhadores culturais, escritores, músicos, profissionais das mais variadas e fragmentadas categorias profissionais a serviço da riqueza de uma minoria a qual escraviza a maioria pobre e banguela.

A consequência social imediata desse aumento da massa de desempregados, ou, exército de reserva, alimenta duas vertentes capitalistas: de um lado, a classe que junta, a cada segundo e dia, ainda mais riqueza, e, de outro, aqueles que se propagam como cogumelos, destinados à desrazão da razão. Segundo Mia Couto: “Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações, a dos vivos e a dos mortos.” É primordial repensar as eleições municipais, em todo o País, mais ainda, em Goiânia, cidade que caminha dias atuais à sombra da árvore genealógica estreita de recorte histórico atrelado ao poder dos coronéis e à promessa do padre. Sob o feitiço do perfume da dona do bordel resoluções equivocadas reduzem a cidade à vila sustentada na subserviência da má-gestão que acumula equívocos cobrados a peso de ouro pela indústria da multa, no IPTU exacerbado – cobrado duas vezes, no lixo acumulado, na antecipação do IPVA, no congestionamento do trânsito, generalizado, dentre outros desmandos remunerados a impostos recolhidos no açoite do lombo dos trabalhadores e que reproduzem a parafernália urbana que fomenta a arrecadação.

Nos dias atuais o voto democrático é sinônimo de bota-fora do senso comum e detém o poder de extirpar interesses escusos aliados ao capital e latifúndio. Os que insistem na redução da maioridade penal – sob as bênçãos de leigos que condenam sujeitos sem face nem poder de decisão – usufruem do sal do cifrão público no coxo dos juros extorsivos cobrados pelos bancos privados, agiotas da miséria e mazelas sociais e financiadores de candidatos. A penalização do sujeito o faz estender as mãos à benevolência da primeira-dama e o escraviza no abuso de substâncias. A conjuntura administrativa coloca nas mãos do trabalhador a responsabilidade pela sua (in) segurança tornada item mercadológico de alto custo e grande demanda.

É urgente varrer as oligarquias, o nepotismo de pai para filho que sempre alcança ao neto. É tempo de voto nas urnas, respostas e propostas de mudanças com relação ao “status quo”. A coletividade carece de propostas pactuadas com as mais urgentes necessidades humanas erguidas a partir da articulação dos movimentos sociais. O envelope premiado, ainda hoje, estampa uma bandeira desbotada e anêmica, cuja cor de sangue anda amarelada pela ideologia de conchavo mascarada de santos com pés de barro propaladores da hipocrisia. Os valores dos puros, lavados na corrupção da mala, denunciam partidos estruturados a pelegos, balas, bíblias e bois. Esta conjuntura econômica retrata a condição material e (in) existência dos pobres, a anêmica intelectualidade que estanca as ideias, fenômeno social que, segundo Coutinho “desmascara a miséria da razão” (2012).

 

E o pulso, ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, filósofo; mestre em Serviço Social/PUC-Goiás; mestrando em Direitos Humanos/UFG)

 

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