Brasil

O ganhador da loteca

Redação DM

Publicado em 23 de setembro de 2016 às 02:21 | Atualizado há 10 anos

Certa vez, escrevi uma crônica sobre doutor Manoel Dias Pinheiro e seu irmão, doutor Alceu, primeiros médicos do Duro, que erradicaram daquele sertão a mentalidade de que leite com manga é veneno, mel de abelha com melancia é morte certa, ovo com cachaça azula o couro da gente, e outras bestagens.

Ambos voltaram pro sul de Goiás: doutor Alceu esbarrou no meio do caminho, em Brasília, onde mora até hoje; doutor Manoel, não sei ao certo, mas deve ser lá pelas bandas de Goiânia, após passar boas quadras de tempo pelas rodeanças de Campos Belos. Ambos, trazendo no sangue a vocação da criação de gado, possuíam fazendas nas cercanias da capital goiana.

Doutor Manoel, vitorioso na vida, todo fim de semana ia para Caldas Novas deliciar-se com a tepidez das águas da Pousada para esquecer-se um pouco das lidas ambulatoriais e do corte do bisturi.

Um dia, o vaqueiro do Dr. Alceu – um negrão alto, fornido, assim meio falto de dentes, pés rachados, mas prestimoso como ele só – pediu ao Dr. Manoel que o le-vasse numa de suas idas à Pousada do Rio Quente, de que tanto ouvira falar, pois queria conhecer o tal lugar.

Dr. Manoel, sempre dado a satisfazer a vontade do povinho com quem conviveu no tempo de menino, aquiesceu, prometendo levá-lo na primeira oportunidade, prevenindo-o de que levasse um calção para poder banhar-se nas tão famosas águas.

No dia aprazado, lá se foi o vaqueiro, com o Dr. Manoel, trazendo sua muçuraca de viagem num sapicuá de mescla azul e até uma pequena matula num bocapiu, pra mode fazer uma boquinha na viagem.

E rumaram para Caldas Novas, onde ao redor da água formigava de gente: turistas, gente rica, rapazes e crianças fazendo verdadeiro alarido, escritinho maritaca no goiabal ou periquito na manga, deixando o negrão bestinha com o movimento.

Abobalhado, sem saber o que fazer, o negrão supunha que a Pousada fosse um porongo de água quente, mas não um poço tão concorrido: supunha-a um daqueles peraus de beira de serra onde a gente banha é pelado. E a presença de tanta gente nagrejando na beira d’água inibiu o vaqueiro, que se limitou a ficar assuntando aquele povaréu medonho formigando, com a meninada salpicando chuviscos pra cima e moças e rapazes pulando do trampolim que encimava a piscina.

– Cumequié, rapaz, vem ou não vem? – lá no meio da piscina, o Dr. Manoel animava o negrão.

Como o vaqueiro amuou na sua inibição, o Dr. Manoel enterrou nele umas três ou quatro talagadas de pinga, deixando-o espritado, para voltar a incentivá-lo:

– Vamos lá, rapaz, larga de frouxura!

Estimulado pelas doses de pinga, o negrão desacochou a fivela do cinto, arriou as calças, ficando só de calção, o que não deixou de chamar a atenção dos circunstantes: era um calçãozão feito de saco de açúcar, que ia quase aos joelhos, mais tirado a ceroulas que a calção de banho.

E tchibungou n’água, cuja quentura o deixou entusiasmado, a ponto de desaparecer toda a inibição, e o vaqueiro passou a pular da beirada da piscina – tchibum! – no meio do povo, batendo com as mãos e os pés, assustando as crianças e afastando os mais sérios banhistas. Estava à vontade.  Tão desinibido ficou, que passou às raias da inconveniência: quando pulava n´água e voltava à tona, o pesado calção lhe ficava nos joelhos, e ele, sencerimoniosamente, se limitava a sungar o calção-ceroula, escandalizando o pessoal, que em questão de minutos, deixou a piscina, ficando ali apenas o solitário e entusiasmado banhista, espadanando água para tudo quanto era canto, metido num calção de elástico pouco confiável, que nem sempre permanecia na cintura após cada mergulho.

Quando Dr. Manoel viu que alguns começavam a ensaiar um protesto em nome da moral e da conveniência, espalhou no meio do povo que o negrão havia ganho sozinho uma fortuna na loteria esportiva.

Quando a notícia se difundiu, tudo se modificou: logo, chegaram sorridentes desconhecidos e carregaram o negrão de pés rachados pruma das mesas onde ele, entre doses de uísque importado e bebidas finas, dava gostosas gaitadas, mostrando a bocarra escassa de dentes.

Bebeu à vontade, sempre rodeado de bonitas moças, algumas das quais até insinuando um romancezinho interesseiro.

Quando terminou o passeio e voltaram à fazenda, Dr. Manoel indagou-lhe se havia gostado da Pousada.

– Ixe, dotô, o povo de lá é danado de bom! Me dero inté bibida fina!… Tô dôidio mode voltá!

Se Dr. Manoel o levaria de novo em outro fim de semana, não se sabe, pois era preciso inventar outra mais forte do que a da loteca para justificar a inconveniência do seu palafreneiro no meio do povo.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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