O planejamento integrado e a irrigação em Goiás
Redação DM
Publicado em 5 de março de 2018 às 22:32 | Atualizado há 8 anos
A recente intervenção federal na área de Segurança Pública, no Rio de Janeiro, colocou em evidência um termo pouco conhecido do grande público, mas de suma importância para quem trabalha na administração pública: planejamento integrado.
A falta de integração das ações estratégicas oriundas do planejamento integrado foi, sem dúvida, uma das causas do fracasso da política de segurança no Rio de Janeiro.
Nesse sentido, a atuação das polícias militar e civil, agindo cada uma a seu modo, sem a necessária unidade de comando, essencial para dar um sentido de direção às ações estratégicas de governo, resultou no que hoje estamos diariamente observando na mídia: assaltos, mortes de policiais e de cidadãos naquela que é, por todos, conhecida como a “cidade maravilhosa”.
Embora tenha acordado tarde, acertou o governo Temer ao nomear um interventor federal com plenos poderes sobre as polícias do Rio de Janeiro. Isso dará unidade de comando às ações estratégicas voltadas ao combate do crime organizado.
De modo mais amplo, afirmo: todas as ações de governo tendem a ser mais eficazes quando se integram. Afinal, o que é o Estado se não uma grande organização composta de várias outras organizações menores?
Vejamos dois exemplos tendo como referência estruturas de governos no estado de Goiás.
A Agetop será ineficiente se agir desconectada da estrutura maior que a integra – a Secretaria de Infraestrutura. O certo é esta secretaria determinar o que quer por meio das suas políticas; e a Agetop, por sua vez, executar essas políticas.
Pessoalmente, na condição de ex-funcionário da estatal Celg, presenciei a completa falta de integração dessa instituição no momento em que Goiás implantava o mais importante programa de modernização de sua agricultura nos anos de 1990: a irrigação.
A irrigação foi implantada pela empresa sem nenhuma integração com outras estruturas do estado necessárias à articulação de estratégias. E o que disso resultou? Resultou que inúmeros investimentos no suporte elétrico para irrigação se tornaram em verdadeiros elefantes brancos. Eram investimentos demais para demandas de menos (detalhe: pelos meus cálculos, foram colocados em torno de 12 vezes mais investimentos do que as reais necessidades, na época, requeriam).
Desse modo, chegaram investimentos em irrigação em lugares que nem existiam estradas para escoar a produção agrícola. Mais: levou-se energia elétrica para regiões desprovidas de algo fundamental para a agricultura irrigada – água. Mas por que isso aconteceu? Aconteceu porque a irrigação em Goiás, conduzida pela Celg, não se integrou com os órgãos do estado responsáveis pela emissão de políticas correlatas ao suporte elétrico levado aos irrigantes. Esses órgãos eram as Secretarias de Transportes e a de Recursos Hídricos.
Resultado: a energia para incentivo à irrigação em Goiás se constituiu em uma das causas da falência da estatal Celg. Era o desenvolvimento fácil que deixaria um elevado preço a pagar para o povo dessa terra. A privatização da empresa evidencia essa verdade. Estávamos, pois, léguas distantes do planejamento integrado.
Assim, concluindo, o aumento da criminalidade no Rio de Janeiro é o preço que paga a sociedade daquele estado pela falta de ações integradoras. No caso de Goiás, o mesmo povo pagou com elevado preço em outra área de governo, mas pelo mesmo motivo. Ou seja: a privatização da empresa motivada por sobreinvestimentos colocados no sistema pelos verdadeiros donos do poder, que se tornaram milionários da noite para o dia: os empreiteiros contribuintes das campanhas eleitorais.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético, é autor, entre outras obras, de a Energia na Região do Agronegócio)