O preço da mentira
Redação DM
Publicado em 18 de junho de 2016 às 03:37 | Atualizado há 10 anos
O assunto mais comentado nas redes sociais nos últimos dias, motivo de protestos, indignação coletiva e que repercutiu até mesmo no cenário internacional, pode não passar de uma grande e bem planejada mentira.
O possível caso de estupro dentro das dependências da maior universidade do Estado de Goiás apareceu no momento em que a sociedade brasileira estava já sensibilizada e fragilizada em relação à violência contra a mulher, por conta dos acontecimentos recentes no País, como o estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro, no qual uma garota visivelmente dopada foi estuprada por mais de 30 homens.
A efervescência da discussão a respeito do tema nas redes sociais levantou o debate em diversas instâncias da sociedade, sendo um dos principais assuntos em foco nas mídias, entre autoridades e nas conversas informais. Em um contexto no qual o assunto tem sido tão massivamente repetido, seria consideravelmente fácil levar as pessoas a acreditarem em uma falsa história de abuso, estupro ou qualquer tipo de violência contra a mulher.
Desde a última terça-feira (14), Goiás tem acompanhado a história do possível estupro no campus 2 da Universidade Federal de Goiás (UFG), no qual uma única testemunha, Daniel Bezerra, 21, estudante de Informação e Comunicação, diz ter visto uma garota ser “jogada” para fora de um carro, visivelmente desarrumada e abalada, e que suspeitava que ela havia sido vítima de estupro.
Após Daniel relatar o ocorrido em suas redes sociais, o assunto tomou grandes proporções e se tornou o principal foco da mídia estadual, além de ter suscitado uma das maiores ondas de protestos que a UFG já havia visto, levando em consideração que a reitoria da universidade se encontra ocupada por dezenas de estudantes que exigem posicionamento oficial do órgão em relação ao caso, além de melhor esquema de segurança dentro do campus. E isso sem considerar a onda de pânico que se espalhou entre as estudantes que passaram a considerar haver entre elas um estuprador.
Acontece que, depois das investigações, a polícia está chegando à conclusão que a denúncia feita por Daniel é falsa, e mais: que ele premeditou e planejou o ato, tendo em vista que a câmera de segurança do prédio onde ele diz ter visto a garota que poderia provar o ocorrido (já que fica virada para o banheiro onde a jovem teria entrado) foi virada para o outro lado uma semana antes pelo próprio Daniel.
Além disso, a delegada responsável pelo caso, Ana Elisa, defende que o depoimento do jovem é contraditório e mentiroso, pois havia seguranças no local no dia do ocorrido, os quais Daniel afirmou não ter visto. Em adição, a vítima não prestou nenhuma denúncia na delegacia. Na verdade, essa garota parece nem existir, já que ninguém sabe quem ela é. Caso a denúncia se comprove falsa, Daniel pode ser preso por falsa comunicação de crime.
A pergunta mais sensata a ser feita diante dos fatos apresentados é: por que Daniel se daria ao trabalho de premeditar uma denúncia falsa sabendo que se ele fosse descoberto poderia ser preso? O que ele ganharia com isso? Seria uma aposta? Vontade de ganhar likes na rede? Desejo de denunciar (mesmo que de uma forma bizarra) a falta de segurança na UFG? Enfim, se essa é mesmo uma falsa denúncia, quais seriam os ganhos de Daniel?
Ok, mesmo que toda essa história seja uma grande farsa que saiu do controle de seu autor, ela está servindo para que a universidade reveja o esquema de segurança que adota, levando em consideração que é sim possível que um estupro aconteça dentro de suas dependências, e isso, sem dúvida, é um ponto positivo. Claro que haveria formas mais sensatas de suscitar essa discussão, pois as consequências de uma falsa denúncia como essa são grandes. Afinal, todas as mulheres que precisam frequentar diariamente o campus 2 da UFG ficaram, em maior ou menor grau, abaladas e com medo de também se tornarem vítimas.
Vamos ser práticos: A) Daniel pode ter visto uma garota saindo de um carro naquela noite, do modo como descreveu, mas ter interpretado errado o que viu? Sim. B) Ele pode ter interpretado certo, o estupro ter acontecido e a garota estar se escondendo? Seria uma coincidência muito grande ele ter virado a câmera uma semana antes, mas sim, essa versão também é possível. C) Ele pode ter inventado a história por algum motivo ainda não identificado? Sim também.
O que se sabe até então é que faltam as principais peças desse quebra-cabeça para que o caso seja resolvido por completo.
Daniel agora está no litoral e a vítima ainda segue uma incógnita. As investigações não foram concluídas, a ocupação dos alunos na reitoria prossegue e o assunto foi trazido definitivamente à tona dentro da UFG.
Independente do final dessa história, pelo menos uma coisa está certa: a sociedade está se rebelando contra a violência de gênero.
(Ariana Lobo, jornalista e escritora)