O samba é branco quando a arrogância é absurda!
Redação DM
Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:48 | Atualizado há 10 anos
A canção nomeada Samba Branco, da cantora e compositora goiana Grace Carvalho, que participou da primeira e da última temporada de 2016 do The Voice Brasil, é a manifestação do racismo que é naturalizado e estrutura a sociedade brasileira, que gera a violação da dignidade, cidadania, humanidade e de vidas de pessoas que são vítimas deste fenômeno que segundo a legislação brasileira é crime! Isso que a cantora toma como bandeira da sua arte são temáticas que viemos trabalhando no intuito de combatê-las, tendo em vista que estas não são mais que reproduções e propagações de mazelas que foram construídas historicamente dentro do contexto de escravidão de dominação branca e do sistema patriarcal.
Na letra da canção, além dela afirmar sua condição de sinhazinha que nunca saiu da casa-grande e a sua relação de senhora e serva com as negras, em seus devaneios ela também incita a destruição das modalidades de existência das mulheres negras em um discurso que propaga a opressão sistemática sobre estas mulheres. Me esforço para entender isso como um devaneio, pelo fato de a falta de bom senso ser absurda ao tentar se apropriar de uma expressão cultural de um povo, que tem ícones como representantes que ela jamais chegará aos pés, principalmente mulheres, as quais ela nega suas existência e toda a trajetória de sucesso como algumas que vamos citar aqui: Jovelina Pérola negra, Dona Ivone Lara, Mart’nália, Elza Soares, Alcione, Leci Brandão, Mariene de Castro, Nilze Carvalho, Dona Inah, Clementina de Jesus, Paula Lima, Clara Nunes, Glória Bomfim, Aline Calixto, Maria Rita, Fabiana Cozza, dentre tantas.
Com este argumento ela está simplesmente negando a própria história do samba, que assim como a cultura negra em geral teve a atuação das mulheres negras como fator relevante na manutenção de nossas expressões culturais. Já que ela não sabe, foram várias mulheres e a mais famosa dela é a Tia Ciata que abriu a sua casa para as reuniões e festas e roda de sambas e outras festividades negras porque não só naquela época, mas até os dias atuais, as articulações negras de lazer nos espaços urbanos foram e são vistas como ameaçadoras e promovedoras da desordem social onde a mídia atua como principal propagador desse discurso e legitima as repressões policiais violentas, inclusive o extermínio da juventude negra. O samba e seus e suas protagonistas, bem como quase todas as expressões culturais negras, eram perseguidas pela polícia e a sociedade brasileira em geral, que as tinham como atividades marginais devido aos seus pressupostos racistas.
O samba vai ficando branco […]
E fico me perguntando se isso vai funcionar
Samba branco, samba sem preconceito
Samba branco de branco mas deixa quebrar
Samba branco, de branco mas samba direito
Samba branco mas isso não tem raça
Não quero essa nega gingando
Eu não entro na roda com essa negra nem de brincadeira
Neste trecho vemos a expressão concreta da negação da existência do outro; no caso nós mulheres e homens negrxs, e, do racismo que levam pessoas como ela querem se apropriar e branquear as expressões culturais dos outros, cujo argumento é sempre o mesmo que se projeta na letra da compositora: “samba sem preconceito”. o belo discurso da democracia racial brasileira “Samba branco mas isso não tem raça”, ou seja, a famosa defesa da ideia de que, somos todos seres humanos, logo não tem raça, por tanto, o samba não é uma cultura negra, e se não tem origem qualquer um pode fazer. Então, partindo desta lógica perguntamos, como se justifica o racismo presente na sociedade brasileira e no mundo se somos apenas seres humanos e iguais? Porque o samba foi perseguido por muito tempo e até hoje um número expressivo de pessoas brancas têm preconceito com o gênero e fazem questão de dizer que isso é coisa de preto ou gente de cor?
Portanto, ao contrário do que a artista afirma, o samba tem cor, ele é uma expressão da cultura negras que nunca foi e nunca será branco, o que acontece, é que algumas pessoas brancas gostam e cantam samba e são aceitas e reconhecidas pela comunidade negra, pois, o samba já é uma expressão da cultura popular brasileira, mas, assim como as culturas por exemplo, das colônias de descendentes europeus que vivem no sul do país, o samba também tem sua origem que fazemos questão de preservá-la. E sem contar que isso é digno e honesto, pois, não estamos usurpando e nem passando por cima de ninguém!
E sobre a pergunta da cantora: “E fico me perguntando se isso vai funcionar”? Digo que, vindo da forma como veio e de quem veio; não! Não vai funcionar porque nós, não a reconhecemos com alguém digna a nos representa dentro da nossa cultura, como afirma o musicólogo francês Gerard Béhague (2006, p. 65) em seu artigo “Música “erudita”, “folclórica” e “popular” do Brasil: Interaçõe e inferências para a musicologia e etnomusicologia modernas” afirma que geralmente os ouvintes da música de seu grupo de origem vão além da mera utilização de sons para poder identificar esses sons como parte de sua própria tradição, inclusive sua própria percepção de compositor como o porta-voz de sua cultura e do seu país.
Não vai funcionar não pelo fato de o samba ser uma expressão artística negra, ou pelo fato da artista ser branca, mas, pelo racismo, arrogância, prepotência e todo o discurso de opressão e invisibilização das mulheres negras e as formas de violências que tal letra propaga. Vale ressaltar também, que no samba tem pessoas brancas, principalmente mulheres, que cantam, tocam compõem e fazem bons trabalhos e que a comunidade negra aplaude como: Roberta Sá, Beth Carvalho, Eliana de Lima, Joyce Cândido, Karime Hass, dentre outras. e se, a humildade é algo que a artista pode ter, ela deveria no mínimo se espelhar na Beth Carvalho, que não exito chamar de sambista, para que ela possa no mínimo entender como esta relação se constrói.
A compositora parece ainda está imersa no sistema escravocrata, em uma condição de sinhazinha que nunca saiu da casa grande, acentua e reforça essa tal rivalidade entre mulheres brancas e negras que não passa de um constructo do sistema patriarcal e de escravidão, quando na verdade ela deveria, ter empatia repensar seus privilégios e tentar buscar novas formas e estratégias de interações como as negras do samba assim como muitas mulheres brancas estão fazendo para que esta relação histórica construída no contexto de escravidão seja rompida e que relações que visam novas maneiras de aprendizagens pautadas no respeito, cidadania e dignidade sejam promovidas.
É importante ressaltar que pensamentos como este incorporam intento do processo de modernização e higiene racial do processo de incorporação do samba à indústria cultural e nas expressões midiáticas que visam apenas o mercado e lucro e que, para conquistar mercados promovem o branquiamento que tirou e tira dos negros e principalmente das mulheres cargos e espaços relevantes que estas assumiam antes, tirou o poder de decisão e inclusive a presidência da maiorias das escolas de samba que antes eram em sua maioria executados por homens negros. constroem uma imagem deturpada que se embasam em estereótipos sobre as mulheres negras, que a cantora propaga no clipe oficial da música, as imagens do clipe são caricatas dentro de uma estética que deixa a mulher negra em um condição que podemos denominá-las “feias”, em relação às imagens de mulheres brancas que ela usa.
A letra da composição criticada aqui expressa também o patriarcalismo, machismo e o sexismo que atravessam a sociedade e o cenário do samba midiático que limitam as mulheres negras de assumiram plenamente seus protagonismos. Ela propaga também os princípios paternalistas; como ela diz: mas, tenho Cartola, Vinícius, Ari, Pixinguinha, e Noel na vitrola. Como já disse aqui, com tanta mulheres negras fantásticas ou até mesmo brancas fazendo samba, ela só tem homens em sua vitróla! Isso mostra o quanto as mulheres ainda se configuram em uma, vítima, uma presa fácil do machismo naturalizado em nossas sociedade, cuja as próprias mulheres reproduzem discursos poderosos de propagação da dominação masculina sobre as mulheres e que neste caso ainda vem acompanhado do racismo e a violência contra as mulheres negras.
Com tudo isso, podemos intuir que o interesse dela com o samba é puramente de cunho econômico, por isso, canta samba para ganhar dinheiro, ou seja, desenvolve o esquema de exploração predatória do capitalismo neoliberal e assim, promove a pobreza e a miséria das negras e negros em detrimento da sua ascensão financeira. Como ela afirma: Ladeiras eu não subi não tive o mar pra olhar, ou seja, ela não tem relação nem uma com a comunidade do samba, não frequenta os espaços do samba, e aqui em específico o Rio de Janeiro. Como ela mesma diz, o contato dela com o samba e o que sabe do samba é aquilo que ouvi dos homens que tem em sua vitrola. Não posso ignorar aqui a audácia dela em acreditar que além de se apropria, ela pode desrespeitar e diminuir as mulheres negras, mas, o que ela não sabe, que o samba é muito mais que uma forma de ganhar dinheiro para as e os sambistas negrxs.
O que ela não sabe é que através do samba, os e as sambistas e nós comunidade negra lutamos e resistimos contra o sistema racista. Nós militamos, pois, utilizamos as multi expressões culturais negras como forma de refutar a representação de uma sociedade atravessada historicamente pelo racismo e violência contra o extermínio do nosso povo e principalmente dos jovens e mulheres negrxs. E neste ambiente as mulheres negras deixaram, deixam e vão deixar, seus legados na luta contra as opressões raciais e o subjugo patriarcal.
A moça protagoniza esta cena constrangedora porque ela não ouviu as mulheres do samba. Se ela tivesse ouvido a música “Alguém me avisou” da Dona Ivone Lara. Se ela ouvisse a música “Luz do Repente” da Jovelina Pérola Negra. Se tivesse ouvido a música “ Saudosa Mangueira” da Clementina de Jesus. Mas, tudo bem, já que ela não quer ouvir sambistas negras, então que pelo menos ouvisse a música “Com Toda Essa Gente” interpretada pela Beth Carvalho, de autoria do Dudu Nobre, Zeca Pagodinho e Beto Sem Braço, provavelmente o situação seria um pouco mais favorável a ela. Porém, como ela mesma afirma não ouví-las, só pode doar ao seu público aquilo que possui e sobre o samba, o que ela demonstra ter é o bastante para montar um espetáculo onde a ignorância, racismo, sexismo, e arrogância assumem o protagonismo desta cena deplorável. Se ela tivesse em sua vitróla mulheres do samba, não estaria sendo obrigada a ouvir o recadinho “Luz do Repente” que a Jovelina Pérola Negra lhe deixou bem gravado porque este lhe cabe muito bem! Se ela ouvisse mulheres negras do samba, saberia de solidariedade, de amor ao próximo e construção colaborativa. Saberia que na comunidade, na mesa que come um, todos comem.
Considerando tudo que foi expresso aqui, deixo claro que estaremos sempre em nossa lugar de resistência, luta e militância e que, quem quiser chegar tem que chegar, miudinho, pianinho, direitinho e sabendo o lugar que lhe convêm. Não vamos aceitar ninguém, passar por cima das nossas de nossas matriarcas! Por isso, não venha com seu samba branco de compasso manco porque nesta batida, quem dá a cadência, o tom e o enredo é inclusive as negras que têm a ginga que racista não quer ver.