Brasil

Oração para deixar de ser brasileiro

Redação DM

Publicado em 1 de maio de 2016 às 01:10 | Atualizado há 10 anos

Oração para deixar de ser Brasileiro

Oh, Deus,

Ensina-me a brigar

A jogar na cara.

A procurar problema

A criar confusão

A bater-boca

A dividir e colocar um contra o outro

A confrontar

A desmascarar

A pautar as diferenças

A parar com isso de “jeitinho” e “deixar prá lá”.

Enfim, oh Senhor, ensina-me a deixar de ser brasileiro!!

Ultimamente o que mais se vê na imprensa e nas redes sociais é o apelo: “vamos conviver melhor com as diferenças”, “parar de brigas”, “atuar contra a divisão do país”, “não hostilizarmos os que pensam diferente”, “não entrarmos em confronto direto com nossas idéias adversárias”.

É o velho  “deixa disso”  brasileiro. É o velho: “vamos falar do Corinthians”, vamos falar de coisas mais amenas, “vamos brincar que o Palmeiras jamais será campeão”, “você viu o jogo do Vila hoje?”

Nossa herança ibérica, calcada na família, na amizade, no pequeno grupo, nos faz muito mais afetivos do que racionais. “Ideologia” é, portanto, coisa racional, não deveria pautar a nossa convivência como brasileiros. É a antítese do que vemos no Velho Continente, onde a razão, as “razões de Estado”, estão acima das “razões do coração” (afetos, amigos, família, companheiros, etc ).

Quando vejo alguém questionar outro em público, chatear alguém em público, por motivos ideológicos, eu vibro; vejo nosso país caminhando rumo à civilizada barbárie europeia: é briga sim !! Temos, sim, de brigar; temos, sim, de contrapor as atitudes dos outros às nossas convicções. Julgá-las racionalmente, questionar motivos, combater o que julgamos ser obscurantismo, pautar pela dialética, pela discussão, pelo debate e pelo confronto.

Quando estudei na Europa, surpreendi-me com as discussões de casos clínicos que duravam oito horas, sendo que, no Brasil, depois de 5 minutos falando de um paciente, os médicos já acham que a gente está falando demais.

O que o país precisa, sim, é de um “aprofundamento na agressividade”, evidentemente não desta agressividade que mata por latrocínio ou por ridículas brigas de torcida.

Oh, Deus, trazei-me o “mal” !!

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)

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