Brasil

Os intelectuais, o poder e as novas realidades

Redação DM

Publicado em 24 de outubro de 2016 às 23:59 | Atualizado há 10 anos

É sempre muito proveitoso recorrermos às reflexões dos grandes sábios da humanidade para, assim,  conseguir entender a realidade que nos cerca.

Aproveito os escritos do grande humanista italiano, Norberto Bobbio, como instrumento para voltar a discutir, neste espaço, a frágil relação existente na terra do pequi entre os intelectuais e o poder. É salutar essa discussão porque atravessamos momentos de turbulências ante as mudanças de realidade, em cujo contexto se observa, entre nós, o fim do Estado empresário.

Rememoremos resumidamente  algumas reflexões desse sábio italiano que tem muito a ensinar-nos.

1ª O intelectual trai sua missão de defender os valores símbolos da sociedade no momento em que se deixa levar pelas paixões irracionais da política.

2ª O que é lícito para os políticos não é lícito para os intelectuais.

3ª O verdadeiro intelectual tem o dever de iluminar a opinião pública, principalmente quando se trata de desmascarar os mandos e desmandos dos poderosos.

4ª O instrumento de trabalho do intelectual não são as máquinas, mas sim as ideias.

5ª Bobbio distingue dois tipos de intelectuais: os ideólogos (utopistas) e os expertos que dispõem da racionalidade técnica;  e, estes, na condição de “técnicos”, prestam seus serviços aos donos do poder, legitimam o ilegítimo; negociam o negociável. Estes, sempre, foram recompensados por agir assim.

Posto isso, examinemos a realidade goiana à luz dos escritos do grande humanista italiano.

O que se observa é que grande parte de nossos intelectuais/técnicos  optou por defender este ou aquele partido desde que estivesse no poder.

Nesse sentido, vale a seguinte indagação: onde estavam nossos intelectuais no momento em que a sociedade goiana necessitava saber por que perdera tantos ativos (Banco do Estado, Banco de Desenvolvimento, Caixa Econômica, Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada e agora a CELG)? Resposta: muitos deles estavam servindo ao poder, qualquer que fosse ele. Que o digam contratos, licitações e aditivos, fontes maiores da falência de nosso sistema político que um dia fomentou o desenvolvimento deste Estado.  Vale ressaltar: muitos desses intelectuais (“técnicos”), que estudaram à custa de nossos impostos, legitimaram contratos, aditivos,  enfim: serviram ao poder e foram recompensados pelos seus inestimáveis serviços prestados na escuridão, léguas distantes do interesse público. A falta de crença alimentou a falta de caráter. Nessa condição, perderam as duas condições fundamentais ao verdadeiro intelectual — a crítica e o elogio.

Político não assume o desgaste de ninguém. Quando muda a realidade, os políticos costumam migrar com ela para sobreviver. Nesse contexto, os intelectuais expertos entram literalmente pelo “cano”. Basta observar quem fica preso e quem escapa momentaneamente das garras da justiça. A esperteza morde o próprio rabo quando o país procura nova direção.

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de A Energia Na Região do Agronegócio)


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