Brasil

Pão para quem tem fome!

Redação DM

Publicado em 12 de janeiro de 2017 às 01:08 | Atualizado há 10 anos

A imensa maioria das pessoas que conheço come pão! Come pão e suas amplas variedades; pães doces, salgados, com ou sem recheios, maiores ou menores. Para se fazer pão é preciso, além da farinha de trigo, ingredientes como água, sal/açúcar, manteiga e fermento. Depois da massa pronta e descansada ela precisa ser devidamente repartida e, em seguida, levada ao fogo para que, depois de certo tempo, saia como o pão que conhecemos.

Alguns estabelecimentos o vendem por unidade e outros por quilo. Velhos, adultos, crianças, homens, mulheres e pessoas doentes comem pães. São vendidos em grandes supermercados, em mercearias, lanchonetes, “pit dogs” mas são presenças cativas em hotéis, cantinas, bares ou mesmo em vendedores autônomos. O pão é parte do vernáculo religioso. Quem não se lembra da passagem religiosa e que em certa altura da missa o padre anuncia que “este é o pão da vida; este é meu corpo”? Está também, na vulgata cotidiana onde indo ao trabalho alguém diz para outro que está “indo ganhar o pão de cada dia”.

Pão é objeto mas é discurso, código, sensibilidade, afeto e identidade de classe. Pode, inclusive, se tornar a expressão singular de uma unidade estratégica para a geração de renda. Aqui em Itumbiara, este lugar escondidinho em meio a um oceano de cana, seria de boa inteligência a criação de uma cooperativa de panificação; seria moderno e criativo se pais, mães e interessados se juntassem para a produção de pães de efetiva qualidade (entidades como Senai, UEG, Ulbra etc. poderiam acompanhar e certificar essa qualidade produtiva). O mercado é garantido!

São dezenas de escolas municipais que precisam fornecer pães para mais de dez mil crianças; são empresas públicas que ganham e muito se bem alimentarem seus trabalhadores; são centenas de empresas privadas que fornecem, ainda fornecem, algum alimento para seus trabalhadores e que carecem de reduzir custos.

Uma cooperativa de panificação tem a graça de não visar lucro posto que é “empresa sem patrão”, “empresa sem empregado”, são cooperados e todos, evidentemente, co-responsáveis pela produção, gestão, estratégias de marketing, desenvolvimento institucional, desenvolvimento de produtos, parcerias, contabilidade e administração.

Nessa cooperativa, cooperativa de verdade, todas as informações são obrigatoriamente democratizadas para que se evite o domínio e o controle de poucos sobre muitos e todos (eu disse: todos!) decidem conjuntamente, de forma livre e autogestionária, metas, caminhos e estratégias de desenvolvimento a partir das definições previamente estabelecidas em seus estatutos e regimentos.

E os ganhos? Como operar a distribuição dos ganhos de modo a garantir justiça e unidade ao empreendimento? Não é tão complicado assim! Os ganhos são divididos de forma equânime e proporcional aos quantitativos de trabalho e produção realizados, ou seja, não é uma casualidade que tudo deva ser muito bem registrado para evitar conflitos e defecções.

Linhas gerais, o ganho está relacionado com o trabalho envolvido e produzido e sua consequente comercialização. Os mais experimentados bem sabem que o problema de uma cadeia produtiva não reside substancialmente na específica produção mas sim, na comercialização. O mercado está aí, mas é um ente caótico pela ação de monopólios e oligopólios e que, não casualmente, são potencializados pelo Estado.

Dessa forma, uma iniciativa cooperativa efetiva e promissora é antes, uma intervenção social planejada e crítica no mercado vigente; uma resistência de democracia econômica em prol de algum ordenamento para um mercado que, embora existente, opera cego sob a batuta e a lógica de grandes capitais e que anulam ou inviabilizam toda e qualquer possibilidade de socialização econômica.

Cooperar em uma economia como a que estamos chafurdados; orientar politicamente a produção e o consumo em um caos planejado como o que estamos compulsoriamente inscritos é, bem mais do que o esforço para a assunção de outra racionalidade econômica, mas é mesmo, uma necessidade histórica para milhões e milhões de brasileiros inviabilizados por uma economia criminosamente rentista e usurária.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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