Papelada
Redação DM
Publicado em 30 de dezembro de 2016 às 00:21 | Atualizado há 10 anosDia primeiro. A noite de sono foi ruim. Tive sensação de garganta seca ao longo da madrugada. Ao acordar, bebi a água de dois copos. Mas o desconforto na laringe parece advir da faringe. Vai saber. Não sou médico. O problema é que pode ser um início de resfriado ou até mesmo gripe. Melhor ficar em observação.
Entardecer, dia primeiro. A sensação de garganta arranhada piorou. Como se o tempo estivesse muito seco. Como se o ar entrasse rápido demais por minhas narinas com incontáveis navalhas minúsculas. Como se lanhasse os tubos internos de respiração. É desconfortável respirar pelo nariz. Por vezes, me pego ofegante, puxando ar pela boca. Não deveria fazer isso. Apesar de me policiar, simplesmente acontece. Foge ao meu controle.
Dia segundo, madrugada. Deve amanhecer em duas horas. Ainda não consegui cochilar um minuto que fosse. Deitei em praticamente todos os cômodos disponíveis no apartamento. Não encontrei uma posição confortável. Ainda não tossi. Imagino que isso possa ocorrar em dois dias. O nariz apresentou sangramento em algum momento da noite. Mal consigo engolir minha própria saliva sem sentir desconforto. Há um monte de coisas a fazer pela manhã. Vai ser um dia osso.
Dia segundo, meio dia. Cumprir os compromissos foi mais complicado do que esperava. O desconforto evoluiu para uma dor de cabeça constante, na porção anterior da cabeça. Estou com o equilíbrio afetado. Minha percepção sensorial não é a mesma. Percebo que a dificuldade de dirigir é ainda maior do que imaginava. A coriza neste momento é viscosa e transparente. As narinas estão vermelhas e os olhos miúdos. Preciso dormir.
Dia terceiro, madrugada. Tive breves cochilos ao longo do dia. Havia um monte de coisas a fazer. Não cumpri nada. Essa bagaça toda vai ficar acumulada. Olho para a sacolinha de medicamentos. Há um antigripal e uma pastilha para garganta. Talvez os efeitos amenizem e eu consiga ao menos apagar por umas três horinhas. Sinto calafrios pelo corpo todo. Ainda que bastante coberto, tremo de frio. A febre está na casa dos 38,5º. É alto para mim.
Dia terceiro, almoço. Hora de comer. Não senti diferença na balança. Mas o desconforto respiratório me tirou o paladar da comida. Engulo a refeição com dificuldade. O nariz obstruído torna o ato de respirar uma vitória a cada fungada. Preciso mastigar e respirar ao mesmo tempo. Dá um trabalho danado. Não é uma cena bonita. A cabeça continua doendo. Terei de ver um médico à tarde.
Dia terceiro, tarde. Consulto um clínico geral num postinho de atendimento. O médico é rápido. Pergunta o que eu acho que tenho. Curiosa a pergunta dele. Eu me diagnóstico. Sinusite, contei. Ele decide que estou certo. Para confirmar, pede que eu faça chapas de raios-X no crânio e no pulmão. Passa uma receita com azitromicina, xarope para a garganta e um antitérmico. Prevê que estarei melhor dentro de três dias. Assim espero. A tosse já me incomoda muito. A garganta já está bem ferida.
Dia quarto, tarde. O efeito do antibiótico sobre a minha confirmada sinusite é notável. A sensação de cabeça cheia e pesada reduziu já com o segundo comprimido. Imagino se é um efeito placebo. Balanço a cabeça – menos agitado como fazia nos shows de heavy metal – e percebo que a tontura é menor. O desconforto no ouvido esquerdo também reduziu bastante.
Dia seis, noite. Estou na quarta dose de antibiótico. Os efeitos da sinusite são, neste instante, mínimos. Sinto ainda um pouco de meleca no nariz. Também não recuperei plenamente o paladar. Mas estou bem melhor. Ainda há dificuldade em dormir, mas consigo passar horas de sono sem grandes problemas. A disposição aumentou e, hoje, devo dar minha primeira caminhada.
Durante uma década dividi o quarto com uma estante repleta de livros. A convivência íntima com as obras teve forte influência na aquisição de uma sinusite crônica. É o preço para a relação de amor que tenho com a papelada. A gente vai juntando os troços ao longo dos anos e, quando percebe, está com o cômodo abarrotado de volumes. Fazia uns dois anos que a bandida não me atentava. Detesto adoecer. Está na hora de aderir ao ebook.
(Victor Hugo Lopes, jornalista)