Brasil

Politizando o consumo

Redação DM

Publicado em 22 de julho de 2016 às 02:38 | Atualizado há 10 anos

Quando compramos meio quilo de tomate na feira; oito pães no supermercado; um comprimido na farmácia ou; uma passagem de ônibus nem sequer percebemos que estamos alimentando uma ampla teia de fluxos e processos econômicos e que, pelo menos, definem a própria sociedade.

É tudo muito automático. Se precisamos de algo, corremos ali no boteco, na quitanda ou no supermercado e o trocamos por certa quantia de dinheiro. Não nos importamos se este produto foi produzido por crianças escravizadas no Níger; por mulheres violadas sistematicamente pelo Boko Haram ou; por latino-americanos submetidos a jornadas de dezesseis horas em alguma “farm” do Texas.

Tampouco nos importamos se a cadeia produtiva disto ou daquilo degrada biomas, se contamina extensas bacias hidrográficas ou se as matérias-primas utilizadas condenam diversas comunidades rurais em algum lugar remoto do Brasil.

Esse descaso, indiferença sócio-econômica ou ainda, alienação quanto aos processos produtivos é elemento decisivo e mesmo fundamental para a própria lógica de funcionamento e acionamento da mercadoria contemporânea.

Mais do que um artifício, uma engenhosidade da criatividade humana, a “coisa” mercadoria é uma relação muito bem definida, uma atitude ante ao mundo que nos cerca, envolve e define. Mercadoria é antes, uma postura, um disciplinamento e uma conformação mental.

E definitivamente não há consumo inocente, banal e despropositado. Todo e qualquer consumo é parte de uma lógica societária, de um ordenamento político, de uma disposição de classes, de uma tipologia ambiental.

É por isso que sob a perspectiva da produção/consumo todos somos incluídos, partes e ativos na atual e dramática configuração social e econômica e que arrasa fundo com o que restou de natureza e de ativos ambientais mundo afora.

Para mitigar ou minimizar a tirania da mercadoria a qual estamos condenados, a melhor e mais eficiente alternativa é politizar o consumo, critica-lo, compreende-lo em todas as suas principais dimensões.

Felizmente, isso está acontecendo. Diversos profissionais, militantes, estudiosos e voluntários atuam na composição de redes de colaboração solidária (a esse respeito, conferir os trabalhos de Euclides André Mance) e que, por exemplo, não potencializam o consumo de produtos que exploram trabalhadores, que precarizam o trabalho, que arrasam com o meio ambiente ou que produzem miséria em uma ponta da cadeia produtiva da qual são partes.

As chamadas lojas de “Fair Trade” ou comércio justo já são realidades na Europa, nos Estados Unidos e no Japão e o chamado Movimento pelo Comércio Justo e Solidário no Brasil, na América Latina e na África avança se organizando, construindo novas culturas a envolver produção, circulação e consumo e o amplo caos da economia começa a ser ordenado a partir de uma nova educação para o trabalho, para a produção e para o consumo.

Sem sombra de dúvidas, uma esperança!

 

(Ângelo Cavalcante, economista e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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