Posse do Alaor – II
Redação DM
Publicado em 11 de junho de 2016 às 02:44 | Atualizado há 10 anosAo construir as suas narrativas, Hugo de Carvalho Ramos exercitou, é fácil observar, a forte influência do estilo da prosa da época, construído, com muita densidade, principalmente por Coelho Neto e Euclides da Cunha, dois autores que Hugo de Carvalho Ramos leu muito e, certamente, absorveu com intensidade uma certa época em diante, conforme nos conta Víctor de Carvalho Ramos no rico perfil biográfico que escreveu sobre o irmão mais novo. De Coelho Neto, recebeu ele, muito do estilo, a técnica de narrar, o gosto da música. De Euclides, a visão sociológica, que se mostra em algumas passagens que parecem inserções estranhas em um texto de narrativa ficcional. Uma delas julgo necessário transcrever, apesar de um tanto longa.
“Geralmente, o empregado na lavoura ou simples trabalho de campo e criação, ganha no máximo quinze mil Réis ao mês. Quando tem longa prática no traquejo, e é homem de confiança, chega a perceber vinte, já considerada exorbitante na maioria dos casos. É essa a soma irrisória que deve proverás suas necessidades. Gasta-a em poucos dias. Principia, então, a tomar emprestado ao senhor. Dá-lhe este cinco hoje, dez amanhã, certo de que cada mil réis que adianta, é mais um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. Isso, no começo do trato; com o tempo, a dívida avoluma-se, chega a proporções exageradas, resultando para o infeliz não poder nunca saldá-la, e torna-se, assim, completamente alienado da vontade própria. Perde o crédito na venda próxima, não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão, que já não lhe adianta mais dinheiro. É escravo da sua dívida, que, no sertão, constitui, hoje em dia, uma das curiosas modalidades do antigo cativeiro. Quando muito, querendo dalgum modo mudar de condição, pede a conta que fica no livre arbítrio de lha dar, e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo, tomando-o ao seu serviço. Passa, assim, de mão em mão, devendo em média de quinhentos a um conto e mais, maltratado aqui por uns de coração empedernido, ali mais ou menos aliviado dos maus tratos, mas sempre sujeito ao ajuste, de que só se livra, comumente, quando chega a morte.”
Não posso deixar de apresentar mais uma pequena amostra da linguagem e estilo de Hugo de Carvalho Ramos,transcrevendo um pequeno trecho de ‘Gente da Gleba’:
“A madrugada amiudava. Já as barras vinham quebrando, e num cabeço dum serro, mui branca e tremeluzente, a estrela-d’alva minguara o seu clarão lacrimejante, anunciando o romper do dia. Rédeas encurtadas, a niquelaria da cabeçada retinindo festivamente, Benedito deu entrada no arraial no trote picado da mula, que frechou direita ao rancho dos tropeiros.”
Finalmente, devemos lamentar que Hugo de Carvalho Ramos venha caindo no esquecimento, tal como tem acontecido a um grande número de escritores brasileiros, não só da sua época. Seu livro ‘Tropas e Boiadas’ nunca mais foi republicado, depois que mereceu uma bela edição, a quinta e última, em 1965, com um valioso estudo introdutório elaborado por Manoel Cavalcanti Proença. O mesmo se diga do volume das ‘Obras Completas’, editado bem antes da quinta edição de ‘Tropas e boiadas’, calculo que na década de 1950, o qual incluiu, naturalmente, a sua produção poética, a qual, a meu ver, não é de modo algum despicienda. Convém apresentar uma pequena amostra dessa produção: O poema ‘Sonho desfeito’, incluído por Veiga Netto na sua ‘Antologia Goiana’, editada em Goiânia no ano de 1944, com a informação de ter sido ‘encontrado entre as páginas de um livro no Gabinete Literário Goiano’.
E, contudo, também eu o trouxe para a vida:
“Uma grande expressão de calma e de harmonia, / Que a tristeza do mundo aos poucos asfixia / Dentro d’alma a sangrar pela dor mal-ferida.”
“Era um hino de paz, na apoteose do dia,/Erguendo para o céu campanários de ermida / Onde fosse rezar a prece mais sentida / O devoto de amor que dentro em mim jazia.”
“Mas depressa rasgou-se o hinário da esperança, / As páginas, então, dispersaram-se ao vento / E do passado esplendor já não há mais lembrança.”
“Ficaram para sempre enterrados no peito, / Ecos, sumida voz, que exalo num lamento/ Ossuário de ilusões do meu sonho desfeito…”
Julgo-me no dever também de falar do primeiro ocupante desta Cadeira 29, o ilustre biógrafo e historiador baiano Luiz Viana Filho. Em primeiro lugar, observando que Luiz Viana Filho focalizou a personalidade literária de Hugo de Carvalho Ramos, com muita competência, minudência e acerto, no seu discurso de posse nesta Academia, ocorrida a 3 de dezembro de 1982. Além de bastante informativo perfil biográfico, enriquecido de citações de cartas que Hugo escreveu a uma irmã, Luiz Viana Filho apresentou um exemplar levantamento da surpreendente fortuna crítica, unanimemente positiva, que alcançou o livro ‘Tropas e boiadas, ’ logo que apareceu, no mês de fevereiro de 1917. Vou transcrever um pequeno trecho do discurso de Luiz Viana Filho: “Não nos entenderemos sobre as apreciações com que a crítica recebeu ‘Tropas e boiadas’. Mas não podemos silenciar haver Viriato Correa lido três vezes o livro, tanto este o empolgou.” E Jackson Figueiredo afirmou, cheio de entusiasmo: “Digo sem medo de errar que, dos escritores da nova geração, nenhum se apresenta assim, à entrada da vida literária, com tantas e tão formosas qualidades artísticas, tão segura técnica de um gênero difícil ou, pelo menos, raramente cultivado entre nós.” Ao mesmo tempo em que, para o irreverente Antônio Torres, ‘Mágoa de Vaqueiro’ é quase uma pequena ‘obra-prima’.
É preciso – digo eu –, ousar corrigir o severo Antônio Torres, afirmando que ‘Mágoa de Vaqueiro’, pungente drama muito bem escrito é, sim, uma perfeita obra-prima – e não é a única em ‘Tropas e boiadas’. Também se pode assim classificar ao menos mais três das narrativas. ‘O saci’, ‘A alma das aves’, e ‘Ninho de periquitos’. Essa qualificação cabe, igualmente, ao romance ‘Gente da gleba’. Também o meu antecessor imediato, Kurt Pessek, ao se empossar nesta Casa, no dia 25 de setembro de 1991, na condição de sucessor de Luiz Viana Filho na Cadeira 29, falou de Hugo de Carvalho Ramos, com bastante justiça. Disse Kurt Pessek que Hugo de Carvalho Ramos “surge vulcânico a arrostar a crítica a se impor. Firme e engenhoso, faz nascer criaturas que parecem respirar”.
(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])