Brasil

Problemas psiquiátricos em mulheres e em pessoas em uso de hormônios

Redação DM

Publicado em 28 de outubro de 2016 às 00:58 | Atualizado há 10 anos

Marcelo, você como psiquiatra, ignoraria em uma consulta uma paciente falar que é impulsiva e muito sentimental? Fui em um psiquiatra e ele falou que a maioria das mulheres são assim…

Tentando responder: não posso opinar diretamente sobre seu caso, não a examinei, etc. No entanto, em tese, podemos considerar que muitos problemas psiquiátricos não são “qualitativamente” diferentes de uma pessoa normal, mas apenas “quantitativamente”. Ou seja, alguns sintomas psiquiátricos são patológicos apenas no “exagero” ou na “falta” de alguma coisa que existe, normalmente, no comportamento de qualquer pessoa normal. Muitos problemas psiquiátricos, p.ex., decorrem de um “excesso” ou “falta” de energia, de impulsividade, de sentimentos, etc. O que tem de ser avaliado em um sintoma psiquiátrico é a disfunção que ele causa: 1/ sofrimento? 2/ sensação de “não dar conta de sair disso sozinho”. 3/ comportamentos ou atitudes mentais auto-destrutivas. 4/ comportamentos ou atitudes mentais destrutivas sobre aquelas pessoas que te amam e fazem tudo de bom para você. 5/ perda da capacidade de trabalhar, de amar, de sentir tranquilidade. 6/ comportamentos obsessivos, repetitivos, compulsivos, dos quais não consegue livrar-se e que, sabidamente, atrapalham funcionalmente sua vida, p.ex., prejudicam sua saúde física, prejudicam seus contatos afetivos e sociais, prejudicam seu trabalho. É bom lembrar que a Assoc. Amer. Psiquiatria está sendo processada por grupos feministas porque, segundo eles, os psiquiatras “patologizam” alguns comportamentos “normais” em mulheres (referem-se a: transtorno de personalidade histriônica, transtorno de personalidade borderline, transtorno conversivo-dissociativo (antiga “histeria”), disturbio masoquista sexual) .

Por isso, as mulheres, como no caso acima, talvez apenas estejam sendo as próprias vítimas do medo que infligiram no psiquiatra. O psiquiatra do caso, pode ser, está tentando não ser politicamente incorreto…

Marcelo, não sou psiquiatra, Solicito aqui um parecer e conselho para uma paciente, que eu desconfio ter transtorno de compulsivide e bipolaridade, mas que vive quase sempre em mania (nunca a vi em depressão, ela apenas resolve fazer mil coisas ao mesmo tempo, inventa cursos, e não termina nada). Sempre fez gastos compulsivos em lojas, já foi socorrida diversas vezes por dívidas astronômicas no cheque especial e cartão de crédito. Pois bem: agora ela resolveu ter o corpo perfeito e começou a usar um coquetel de drogas (hormônio da tireoide em altas doses, oxandrolona, deposteron, GH, e desconfio que até anfetaminas). Desconfio que ela esteja em franca crise de mania/hipomania exacerbada por essas drogas. Estou correto? O que esse coquetel pode causar a uma pessoa com tendência à hipomania ou mania? Como proceder? Estou tentando convencê-la a ir a um psiquiatra urgentemente. Poderia me dar algum conselho? Estou correto no meu possível diagnóstico?

Resposta : Acho que sua impressão diagnostica, pelo menos à primeira vista, e sem ter examinado a paciente, é correta.

Deveria ter um tto psiquiátrico adequado (inclusive com médico que faça psicoterapia).

Hormônios podem precipitar ou piorar doença bipolar até então latente. Por isso, muitos pacientes em uso de hormônios endocrinológicos, remédios para emagrecer, medicamentos ginecológicos, podem desenvolver sérios distúrbios psiquiátricos.

Deveriam levá-la para tratamento psiquiátrico  em caso de agravamento (sem tto isso deve acontecer), é possível até caminhar para uma hospitalização. As vezes também o caso já está tão complexo que o ambulatório, consultório, não resolve, o que costuma também ser necessário em caso de falta completa de insight (falta de auto-avaliação).

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra. Artigos as terças, sextas, domingos)

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