Brasil

Quem tem medo de educador?

Redação DM

Publicado em 7 de outubro de 2015 às 21:49 | Atualizado há 11 anos

O alemão Sigmund Freud é conhecido como o pai da psicanalise, ciência que entre inúmeras contribuições, tratou de colocar o selvagem na alma humana, pura e intocável pela visão judaica/cristão ocidental. Pois bem, Freud que nem sempre explica, mas sim confunde, evidencia que existem funções impossíveis por definição: governar, psicanalisar e educar. Aliás, para o psicanalista alemão, essas funções são mais que profissões, para ele a trindade governar, psicanalisar e educar, cada uma na sua complexidade é uma missão, que exige competência e técnica. Educar é na verdade uma arte, para poucos, diga-se de passagem.

Há algo na profissão docente que não consta em nenhum manual, nem mesmo nas faculdades de educação. Platão, filósofo grego, assinala que o eros é uma condição indispensável para o ensino. Eros que é a um só tempo: desejo, prazer e amor; desejo de transmitir, prazer pelo conhecimento e amor pelos alunos. Edgar Morin evidencia que onde não há amor, só há problemas de carreira e de dinheiro para os professores; e de tédio, para os alunos.

No dia 15 de outubro, comemoramos mais um Dia do Professor. Enquanto a presidenta Dilma, nomeava o 5º ministro da educação do seu governo (2011, é mais de um ministro por ano, veja a lista: Haddad, Mercadante, Paim, Cid Gomes, Renato Janine Ribeiro e Mercadante), aliás, função mais instável do que a de ministro da educação no Brasil, só mesmo a de técnico de futebol… Pois bem, enquanto dona Dilma, trocava Renato Janine Ribeiro, filósofo professor doutor da Universidade de São Paulo, pelo economista/político profissional Aloíso Mercadante; enquanto o ministério da saúde cristalizava a metáfora, vão se os anéis e ficam-se os dedos; enquanto o Brasil tinha suas notas rebaixadas pela agência sei lá o que, enquanto o dólar valia mais de R$ 4,00; enquanto a gasolina aumentava, bem enquanto isso na sala da justiça… Os professores nada têm a comemorar, apenas a lamentar: condições de trabalhos ultrajantes, salas de aulas superlotadas, alunos indisciplinados, piso de míseros R$ 1.917,78 para uma missão de tamanha magnitude… O cenário é desolador.

E dessa vez a culpa não é das estrelas, ou de uma estrela apenas, a culpa é de todos, inclusive de nós, educadores/as. Falta-nos tudo, articulação, visão sistêmica, capacidade de trabalhar em equipe. Tudo que cobramos dos nossos alunos, que sejam cooperativos, que tenham consciência política, que lutem por seus direitos, mas cientes dos seus deveres, falta-nos tudo isso, em suma: façam o que falo, mas não façam o que eu faço.

Nicolau Maquiavel é o autor de um tratado político, que deveria ser o livro de cabeceira de qualquer educador: O príncipe. Nesta obra há uma máxima, que é o fio condutor desse texto: Antes ser temido do que amado. O Príncipe foi um presente de Maquiavel a Lourenço II de Medici (1492-1519), Duque de Urbino. Nesse tratado ele oferece ao soberano os melhores conselhos que um monarca poderia desejar, acerca dos assuntos do Estado.

Entretanto, deixando o livro à parte, afinal o professor deve ser temido ou amado? Como eu adoro uma polêmica, vou polemizar: é melhor o professor ser temido do que amado.

Afirmo isso, pois o professor está muito bonzinho, o professor precisa falar mais grosso. Afinal, quem tem medo de educador? Os políticos? Eles riem de nossa cara. Os gestores? Eles nos achacam. As famílias dos alunos? Elas nos tratam com uma indiferença tamanha. Basta observar o quórum de uma reunião de pais e mestres. Cabe a nós, educadores/as construirmos o respeito pela nossa profissão. É preciso repetir o que o mestre Paulo Freire dizia: professora sim, tia não. Nós educadores/as precisamos ser reeducados.

Karl Marx, em uma de suas teses sobre Feuerbach pergunta: quem educará os educadores? Será uma pequena parcela de educadores/as, contaminados pela fé na necessidade de reformar o pensamento e de regenerar o ensino. São os/as educadores/as que já têm, no íntimo, o sentido de sua missão. É missão desses educadores/as denunciar que as escolas públicas servem apenas como instrumentos de reprodução social que têm produzido cada vez mais trabalhadores dóceis e obedientes ao Estado; o saber adquirido em sala de aula é alienador. Separa e desconecta o indivíduo de um mundo cada vez mais conectado e integrado. E os/as educadores/as parecem estar amarrados em uma situação de total impotência.

As escolas, lócus do trabalho docente, são instituições históricas e culturais que sempre incorporam interesses ideológicos e políticos. E nossa escola hoje é uma máquina rígida, inflexível, fechada e burocratizada. Com professores instalados, segundo Edgar Morin, em seus hábitos e autonomias disciplinares. Como diria Curien, são como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele penetram.

Como educadores do século XXI, temos que criar nossos próprios intelectuais, “intelectuais orgânicos” como assinalou Gramsci, que denunciem o caráter excludente desse sistema, dessa escola fortemente influenciada pela psicologia comportamental e cognitiva. Fundada numa teoria educacional vigente que tem sido consubstanciada sobre uma voz e um arcaísmo de práticas que valorizam os aspectos imediatos, mensuráveis e metodológicos da aprendizagem.

Para Foucault, o sujeito é sempre resultado de uma prática, ou seja, o sujeito é sempre fabricado. Em suma, educadores/as alienados/as produzem sujeitos alienados, uma escola despolitizada, produz uma sociedade despolitizada. A sociedade produz a escola, que produz a sociedade e o professor é o elo desse processo, nele está a semente da mudança.

Como canta maravilhosamente minha querida Leci Brandão em um hino dos educadores, Anjo da Guarda “…na sala de aula que se forma um cidadão, na sala de aula é que se muda uma nação, na sala de aula não há idade, nem cor, por isso aceite e respeite o meu professor…”. E eu digo mais, além de aceitar e respeitar, temam o professor. E você tem medo de educador?

(Edergênio Vieira é poeta e educador da Rede Municipal de Ensino de Anápolis @edergenio)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia