Relato de um médico de São Paulo
Redação DM
Publicado em 3 de dezembro de 2015 às 23:00 | Atualizado há 11 anosMarcelo, me formei em psiquiatria no Hospital do Servidor Público-SP. Fui para o interior de Goiás, seu Estado, mas já estou voltando para um lugar “mais civilizado”; foi a maior burrada que já fiz na vida. Ao chegar numa cidade de Goiás, comecei a atender ambulatório, mas não tinha para onde encaminhar casos graves de internação psiquiátrica. Me falaram que as internações psiquiátricas eram feitas num hospital geral, pacientes agressivos, psicóticos, suicidas, no meio de outras patologias, disseram que era “resolução do Ministério da Saúde”. Só que achei muito estranho me pedirem para encaminhar o paciente já com um diagnóstico feito e com uma conduta médica feita, “pare eles seguirem lá”. Um dia me chamam no hospital, para “por cortesia”, atender uma paciente que estava quebrando tudo, jogou uma paciente pós-operatória de ginecologia (histerectomia) no chão, arrancou a sonda vesical de demora de outra, esgarçando, arrebentando seu detrusor da bexiga (músculo da bexiga, junto com a uretra e tudo). Fui lá “pro bono”; por caridade, ao chegar, me disseram que quem conduzia os pacientes psiquiátricos lá era uma dermatologista, que, segundo eles “cobrava bem mais barato que os psiquiatras que apareceram”. Questionei esse tipo de coisa e me disseram que a médica tinha, sim, “formação psiquiátrica” (olha só: fazia curso de pós-graduação uma vez a cada 15 dias em Brasília e deu plantão em pronto socorro de psiquiatria de Goiânia). Questionei isso também, no sentido de que se fosse assim tão competente, resolveria os casos. Mais uma vez, me mostraram uma resolução do Ministério da Saúde, uma tal 224, dizendo que para fazer psiquiatria em hospital geral não precisava de psiquiatra, bastava ter um médico e mais um psicólogo. Na cidade, a cultura vigente é a de que a tal dermatologista passa os remédios e as psicólogas conversam com eles. Vi, de fato, esta portaria, é isso mesmo. Ou seja, uma vez que, em todo hospital (ainda) precisa de ter médico, é preciso mesmo só de um psicólogo para tocar uma “enfermaria psiquiátrica em hospital geral”… É isso aí, Marcelo, abandonando o interiorzão de Goiás… inclusive pensando em abandonar o Brasil. Só não faço isto porque tenho colegas no interior de locais mais civilizados, por exemplo, de São Paulo, (um deles de Taubaté) que me dizem que “para a gente trabalhar aqui no hospital tem de comprovar título de especialista oficial como ‘médico psiquiatra’”.
Eu , Marcelo, digo: muito interessante (e igualmente triste) sua experiência. É muito difícil mesmo ver uma especialidade médica – e a prática médica de modo geral – degenerada deste jeito. De fato, há portarias e mais portarias (ou “porcarias”?) do Ministério da Saúde (MS), todas tentando arbitrar sobre assuntos dos quais não entendem nada, mas que têm “valor de lei”.
Por exemplo, a tal “psiquiatria tem de ser feita em hospital geral” – a panacéia do MS – só serve para pouquíssimos casos em psiquiatria, casos bem pontuais… A maioria precisa mesmo de hospitalização em hospital especializado, psiquiátrico, hospitais que o MS visa detonar.
No interior do País, se quiseres ter alguma possibilidade de sucesso profissional enquanto psiquiatra, terias de montar uma microclínica, com no máximo uns 10 leitos, atender as m…* que os outros melam ou não resolvem.
Ir para interior selvagem só com consultório é fria, pois irás competir com não-médicos, com médicos não-especialistas, clínicos gerais, ginecos, neuros, cubanos, etc, com todo mundo que mete a mão na psiquiatria sem saber bulhufas, e a preços proletários. Sua clientela só será aquela de pacientes graves, já muito mexidos, que requerem hospitalização, para tentar arrumar as m….* dos outros. Ou seja, só em momento e em local onde “morre gente” é que seu trabalho será valorizado. É assim no Brasil de hoje.
O rapaz pergunta: “Será que se mudar o Governo isto melhora?”
Digo: infelizmente, isso vai demorar décadas para “mudar do ponto de vista legal-normativo”. Serão décadas para ver que a tal “psiquiatria em hospital geral”, “psiquiatria sem psiquiatras”, “psiquiatria sem médico”, não funciona, a não ser para raros casos. Serão décadas para ver que a psiquiatria é uma especialidade médica como outra qualquer, que lida com um órgão doente (cérebro) como outro qualquer.
A assimilação de psiquiatria com “saúde mental” – algo da área de ciências humanas, não médicas – demorará décadas para ser expurgada. Nos EUA, por exemplo, a psiquiatria está desaparecendo, enfermeiros, psicólogos, as. sociais, “terapeutas” de todos os matizes (que podem ter formação mais barata e mais rápida) estão “assumindo” a psiquiatria. Por outro lado, a neurologia está virando neuropsiquiatria e está se fortalecendo nesta área; há uma tendência neste sentido. É justamente a tendência (esquizofrênica ao meu ver) de dicotomizar a área em duas, uma de “humanas” (psiquiatria, psicologia, psicanálise, sociologia, etc) e outra de biológicas (neurologia, neuropsiquiatria).
O interlocutor diz: você me resumiu bem a burrada que eu fiz vindo para k. Só aparece no consultório casos gravíssimos aqui, viu.
Comento: os “casos mais fáceis”, ou seja, que poderiam te dar um pouco mais de tranquilidade, de resolutividade, de custo-benefício operacional para você, estes não vão para você, ficam no neurologista, no ginecologista, no clínico geral, no “cubano”, ou seja, em quem poderia passar “10 mg de fluoxetina” e resolvem o problema da “depressão”. Para você irão só as bombas que eles mexeram e pioraram, e que vai lhe dar o maior trabalho do mundo para ganhar seus 50 “mirréis”.
O rapaz continua: E o mais trágico é que: dinheiro para pagar o justo ao psiquiatra tem. Só que, se pagar, não sobra para roubar ou para empregar outros.
Digo: quantos psiquiatras não darão para ser pagos pela enorme reconstrução do detrusor da bexiga e uretras arrebentados desta mulher?
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra. Artigos nas terças, sextas, domingos – [email protected])