Brasil

Relendo Márcio Borges

Redação DM

Publicado em 23 de maio de 2017 às 02:15 | Atualizado há 9 anos

Sou de uma juventude diferente da que temos agora. Claro, vão-se já os anos de meio século, era o tempo das grandes mudanças, o pós-guerra marcando fundo nossas ideias, opiniões, gostos e atrevimentos. Os Aliados, vitoriosos, deixaram por conta da sociedade americana a vez de fazer graves mudanças – e surgiram os “beatniks” (a definição, segundo algum desses dicionários eletrônicos, é “substantivo de dois gêneros – indivíduo que rejeita o conformismo burguês, os seus costumes e valores convencionais, assumindo uma filosofia de vida e um comportamento pessoal exóticos para o padrão médio”).

O desdobramento fez com que surgissem os “hippies” e, num modo mais comportado – porém revolucionário em sua arte – os Beatles. E as novidades espalhavam-se pelo mundo afora, na literatura dos pioneiros beatniks (grupo constituído a partir de escritores americanos) e na poderosa mídia que “fazia a cabeça” do mundo – o cinema da América.

Em muitos pontos do mundo surgiram os inovadores. No Brasil, tivemos a bossa nova na década de 1960, que juntava grandes exemplos desde Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e Noel Rosa, em cuja esteira despontaram alguns baianos, como Caetano e Bethânia, Gal e Gil e Raul Seixas… Chico Buarque bem representa, entre os cariocas, a marca dessas mudanças.

Algo de altamente revolucionário acontecia, também, na ainda bucólica Belo Horizonte: um grupo de jovens pouco-mais-que-meninos, apaixonados por música, ideias, cinema e poesia (e, inevitavelmente, as essências filosóficas que bem marcam as artes) e tornou-se referência. Tudo em torno de uma família, uma irmandade liderada pelos pais maravilhosos que geraram onze meninos geniais, aos quais juntou-se aquele que se dizia “o filho número 12”. Refiro-me aos irmãos Borges, de Dona Maricota e “sêo” Salomão, ao excelente “letrista” Márcio Borges e ao prodígio Lô Borges… O número 12 era o Bituca, aliás, o crioulo que o Brasil e o mundo conhecem como Milton Nascimento.

Conheci Márcio Borges em Bento Gonçalves, no Congresso Internacional de Poesia, edição de 1997, e trocamos livros. Não tenho dúvida que ganhei na troca, pois trouxe comigo, com um belíssimo autógrafo, o seu “Os Sonhos não Envelhecem”, que li apressadamente e me prometi – “Vou escrever sobre este livro”. Não sei o que houve, sinto que não escrevi ou, se escrevi, não publiquei, e me senti devedor a mim mesmo.

O que fiz, então? Tirei o livro da estante e o reli, estes dias. Às anotações, a lápis, de vinte anos atrás juntei outras, atuais. E o livro, de que eu já gostara em 1997, tocou-me ainda mais, na maturidade atingida após a marca dos 70 anos. Desta vez, a leitura se fez mais mágica, eu consegui fazer paralelos entre os fatos narrados, memorizando o que vivera eu aqui nas marcas cronológicas de Márcio Borges.

Só para exemplificar: em 2005, estive em Três Pontas, a convite da minha amiga querida, a dra. Adélia Maria Batista, que nos levou (Mary Anne e Lucas também) à casa do pai, então viúvo, de Milton, o Bituca. Sentimos saber que o cantor estivera ali até poucas horas antes, ou seja, perdemos a chance de um bom encontro (eu o conhecera aqui, por volta de 1985, na companhia dos irmãos Barra – Rinaldo e Marcelo).

Amei revisitar o Clube da Esquina e, desta vez, pude sentir com mais nitidez a magia do amor de amigos e do carinho de irmãos. Não repetirei nada do livro, somente recomendo aos meus queridos leitores, geralmente pessoas que também amam a boa música e, como eu, idolatraram os meninos do clube da rua Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Beagá, que não percam o prazer e a riqueza dessa obra!

De minha parte, estou com muita vontade de saber o que foi feito de Márcio desde aquele outubro de 1997.

Meu abraço franco e amigo, querido Márcio, irmão de Lô e de…

 

(Luiz de Aquino, jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras)


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