Brasil

Reminiscência dos meus 50 anos: Família

Redação DM

Publicado em 4 de agosto de 2016 às 03:16 | Atualizado há 10 anos

No último dia 16 tive a felicidade de chegar a meio século de idade, agradecendo a Deus pela saúde, predisposição ao trabalho, amadurecimento, pelo amor de meus filhos, netos, namorada, família, amigos e todos que convivem comigo. Não tenho problema com idade, pois em cada fase da minha vida soube como poucos aproveitá-la. Sinto-me, ainda, um pequeno aprendiz da arte de viver.

Nasci na bela e querida Silvânia, terra de baluartes da cultura, berço de grandes heróis de nosso estado e país. Cidade de encantos e cantos de rara beleza. Povo ordeiro, trabalhador, inteligente, amigo e receptivo.

Na rua Santo Antônio, ainda se encontra o velho casarão do finado José dos Santos Cordeiro (Juca do Santo), meu avô materno. Pessoa honrada e que nos deixou mais do que saudades, mas um legado que, dentre as suas inúmeras virtudes, encontra-se a humildade e o amor à família.

Minha avó, dona Terezina dos Santos Rocha, na verdade, era mais do que vó, mas minha cumplice. Que me perdoem os demais netos, mas ela nunca escondeu que eu era o seu preferido, tendo sempre como justificativa ser eu o mais presente. E de fato fui, na infância em Silvânia e na fazenda Terra Vermelha e – ao lado de minha querida tia Fátima dos Santos, nos últimos dias de sua vida – em Goiânia. Sempre que me narram a convivência com os avós, considero a minha bem superior, pois soube aproveitá-la plenamente.

Meus tios-avós, lembro-me de poucos, dentre eles por parte de meu avô, Juca do tio João Anastácio, tio Sebastião, tia Maria Cândida, tia Benedita, tia Geralda, tia Nega, tia Geraldina e tia Vitalina (esta última a minha querida, pois ainda sinto o cheiro do talco que ela usava e do carinho que sempre recebi). Da minha avó, tenho a lembrança tia Geralda (que morava em Vianópolis e foi uma das precursoras da doutrina espírita na cidade), tia Dilurdes, tia Dolores (que nunca esquecia aniversário de nenhum dos seus familiares), tia Angélica, tio Agostinho (que por muitos anos cuidou da fazenda Terra Vermelha; o cheiro das roscas e biscoitos que fazia impregnavam a casa e está vivo na minha memória!) e tia Aggith (esta, a mais próxima e que morava em Ponte Funda, município de Vianópolis, onde adorávamos passar os finais de semana).

Com meu tio Pedro Cordeiro dos Santos, que faleceu aos 33 anos de idade, vítima de leucemia, pude viver intensamente grandes aventuras na fazenda Terra Vermelha (hoje, no município de Gameleira de Goiás). Praticamente todos os finais de semana estávamos lá e sua companhia nos propiciava pescarias noturnas nos rios Piracanjuba e Jurubatuba, que, para um garoto de 10 anos, era fantástico! Bastante amoroso, deixou uma grande lacuna na família, pois era o único tio homem. Sua presença é sempre relembrada pela querida tia Lurdinha e filhos Leonardo e Tatiana.

As tias Anália, Edma, Fátima e Regina, cada qual com sua peculiaridade, sempre estiveram por perto. Tia Anália, sempre foi e é a alegria em pessoa. Sempre participou ativamente na vida dos sobrinhos, principalmente no Natal, na Páscoa e nos aniversários. Trabalhou, com muita propriedade, o lado lúdico da criançada, assim como fez com seus filhos Alessandra, Giovani e Miguel Júnior, e faz com seus netos Maria Tereza, Giovana, Ítalo e Lourenço. Tio Miguel Ângelo Paz Esteves é figura ímpar e um tio amoroso, sendo parte marcante em nossas vidas.

Tia Edma e tio Antônio sempre foram os nossos segundos mãe e pai. Tivemos a alegria de seu convívio em nossa infância, em Silvânia, e nunca se afastaram, mesmo quando se mudaram para Vianópolis e, posteriormente, Goiânia. A paciência dos dois é inenarrável, pois aguentar a tropa da dona Rita e seo Otávio não era tarefa fácil. Esses dois tios amados criaram com dificuldade e colheram os frutos do sucesso, com seus dois filhos Pedro e Paulo, que os presentearam com os netos Gabriel e Guilherme.

Tia Regina – dela posso dizer que é a irmã mais velha. Meu pai a considerava como filha, pois quando iniciou o namoro com minha mãe ela tinha apenas oito meses, e três anos quando se casaram. Sempre foi o xodó do seo Otávio. Médica, foi e até hoje continua sendo o anjo da guarda de meus filhos; seu talento, altruísmo e amor pela profissão fazem-na gigante no ofício. Não posso esquecer do primo Felipe, garoto inteligente e querido.

Com a tia Fátima tenho muitas histórias de música, diversão, alegria, união, lágrimas, amor e cumplicidade. É uma pessoa a quem respeito muito pelo cuidado que sempre teve com minha avó e o tio Júlio Lazzari, figuras que marcaram muito nossas vidas e que tivemos alegria de cuidar em suas velhices. Quantas histórias, minha tia! Quanta saudade da roda de violão, da sua voz e sua companhia! Prometo-lhe estar mais próximo, pois sinto muito sua falta e, creia, o amor que lhe tenho transcende dias, tempo e existência. Fica com ciúme não, tio Jauner! Você também é parte desta história e deste aprazível sentimento.

Esta é uma pequena narrativa de meus familiares por parte de mãe. Do meu pai, sua história foi paralisada pelo afastamento de seus irmãos ainda na infância. Com a perca da mãe e com o pai alcoólatra, foram dados a familiares, onde meu pai, teve o acolhimento e generosidade da família do finado José do Valle, em São José dos Pinhas (PR), o qual o considero como o meu avô, dividindo-o com os primos Justilino e Lourdes; Maria do Rosário e Dagoberto e Mauro e Altanista, e com seus filhos: Ronaldo, Margareth, Rodrigo e Márcia (Justo); Carlos, Mauro, Alessandra, Patrícia e Viviane (Maroca) e Luana (Mauro).

Em 1981, meu pai voltou ao Paraná, depois de ter ficado por mais de 30 anos distante. Foi um reencontro lindo, onde pode rever familiares e inclusive, reencontrar três de seus irmãos ainda vivos: tio Valdomiro, Vitalina e Dalva. Após sua aposentadoria, comprou uma casa em São José dos Pinhais e moramos lá por três anos, período de grandes alegrias e convivência amável com todos.

Deus me deu quatro irmãos: Rodney, Geisa, Keila e Vanessa. Não diferente a todas as famílias, sempre tivemos e teremos nossas rusgas, mas nunca serão maior que o amor que aprendemos a ter em nosso seio familiar.

Não tenho uma prole grande, complexa, diferente e que não foge ao padrão. Embora nascido em uma com cinco filhos, tenho apenas cinco sobrinhos: Rodrigo, Rafael e Gabriel, filhos de Rodney e Ana Maria; Pedro Henrique, filho de Keila e Wallison e Isadora, Vanessa.

Meus filhos Otávio (homenagem ao meu pai), Júlia (homenagem a meu tio Júlio) e Laura, são meus tesouros e razão maior de minha existência. Agregados aos filhos de sangue, existe os de coração, filhas de minha companheira e amada Ana Paula Meireles: Bruna e Ana Karla, que me presentearam com o neto Joaquim e aguardamos a chegada de Maria Paula.

Este é um pequeno relato de meu tesouro maior. A flexibilidade do conceito de família, nos traz diferentes interpretações, que para mim, tudo se resume em uma única palavra: amor.

Aos que me trouxeram ao mundo, minha mãe, Rita Cordeiro do Vale, interpreto-a como sinônimo de trabalho, persistência, companheirismo, lealdade, inteligência, altivez, energia, religiosidade, fé, amabilidade, mãe extremosa e avó devotada. Adjetivos que transcendem a qualquer interpretação, pois sua família sempre esteve à frente de tudo.

Meu pai, Otávio Pereira do Vale, deixou-nos um legado de honradez; responsabilidade, honestidade, humildade e engajamento em tudo que se faz, não tendo limites para os sonhos – mas tendo-os sempre com os pés no chão. Soube como poucos amar de forma intensa e estruturar uma família com alicerce sólido, que nos serve de exemplo para a estruturação das nossas.

Este é o meu universo familiar, que marca minha origem e de que me envaidece fazer parte. Embora distante de uns e próximos de outros, tenho por todos profunda admiração, inefável respeito, imensa gratidão e amor imensurável!

É fácil amar os que estão longe, nem sempre fácil os que estão por perto. O padre precursor do catolicismo moderno, Henri Lacordaire, disse: “Que é uma família senão o mais admirável  dos governos?”. E nessa governança há partidos, oposição, situação, divergência, convergência e animosidades, que ao seu tempo, principalmente com o nosso amadurecimento e introspecção, conduz-nos a mudar conceitos, preconceitos e fatos.

***

É preciso amar a família. Ter zelo por ela. Lutar por ela. Não permitir que se divida. Não aceitar que se contamine. Se somos incapazes de ser felizes com nossas famílias, dificilmente conseguiremos sê-lo conosco mesmo, sem a família.

Amor, paz e harmonia: eis a maior riqueza de uma família!

 

(Cleverlan Antônio do Vale, administrador de empresas e gestor público, articulista do DM. Escreve todas as quintas neste periódico. [email protected])

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