Brasil

Réquiem para doutor José Normanha

Redação DM

Publicado em 2 de abril de 2016 às 01:44 | Atualizado há 10 anos

Nesta última terça-feira de março, 17, a Academia Goiana de Letras, AGL, realizou Sessão Especial de homenagem, Sessão da Saudade, para celebrar o decesso de um de seus mais queridos membros, o acadêmico José Normanha de Oliveira, médico, natural de Carinhanha, Bahia, cidade às margens do Rio São Francisco, profissional pioneiro na Radiologia e na Radioterapia, em que deixou discípulos por todo o Estado de Goiás. Formado em Medicina nas Alterosas, de lá dirigiu-se para Goiânia, onde viria a radicar-se, por influência de amigos. E foi aqui que o conheci, fiz-me seu amigo, e passei a admirá-lo, a partir da ‘Alliance Française’, que eu freqüentava, como aluno do seu Directeur, Prof.Jacques Camé, vindo da França para criar e ser o diretor da entidade. Normanha passou a ser a referência maior do prof. Camé, por quem ele tinha o maior apreço. Neurótico de guerra, oriundo da Segunda Grande Guerra, Camé frequentemente interrompia a aula, ministrada em francês, para descrever, por exemplo, cenas em que soldados não se limitavam a torturar mulheres, indo ao cúmulo de rasgá-las ao meio tomando-as pelas pernas, uma de cada lado, como se fossem pernis de uma caça selvagem que eles fossem devorar. Uma selvageria! Todos esses horrores fizeram com que ele, prof. Camé, jamais perdesse a consciência, e, de conseqüência, nunca mais dormisse, desde que deixou o campo de batalha, vindo para Goiânia, onde viria a falecer, e onde se encontra sepultado, no Cemitério ‘Santana’. Como seu grande amigo, sempre que o prof. Camé necessitava de algum medicamento para minorar os seus padecimentos, recorria ao doutor José Normanha, que o atendia, solicitamente, sem nada lhe cobrar, a título de honorários. E assim se lhe passaram os dias, até que, em determinada ocasião, fui chamado ao telefone para me informar de que o prof. Camé havia falecido, e a Polícia necessitava da presença de um advogado para que fosse feita a necrópsia, eis que, como ele morava sozinho, não havia quem abrisse a porta de sua residência, para os devidos procedimentos policiais. Coube-nos, a mim e a José Normanha adotar as primeiras providências visando a localizar pessoas do seu relacionamento, no Rio de Janeiro, para o sepultamento e as exéquias, recepcionando seus remanescentes oriundos da França, que se tornariam como se nossos familiares fossem, meus e de José Normanha. Assim, encomendamos, Normanha e eu, para que o prof. Camé tivesse um sepultamento digno, com uma lápide de mármore branco, e as inscrições essenciais, em francês. De então para cá, sempre mantivemos estreitos vínculos de amizade e recíproca solidariedade. Com ele e sua família; João, Leonardo (médicos) e Renata (advogada).

José Normanha foi como se fosse um presidente de honra da “Aliance Française” de Goiânia. E assim permanecerá ad aeternitatem.

 

(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])

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