Brasil

Sacrifício e recompensa

Redação DM

Publicado em 28 de setembro de 2021 às 13:50 | Atualizado há 5 anos

Diante de uma restrição qualquer, vem a desculpa para burlar a norma, ou, pelo contrário, dizer que será fácil segui-la por este ou por aquele motivo. São infindáveis casos que se pode lembrar.

Placas: Não é permitido pescar! Não tem problema. Não gosto de pescar. É proibido pisar na grama! Tarde demais, a grama acabou por aqui. Não entre sem máscara! Mas essa doença não acabou? É proibido fumar! É tão normal não fumar, que já nem se vê esse tipo de placa, ainda que alguns soltem suas baforadas. – Nesses casos a recompensa é respeitar a piracema, manter o jardim reutilizável e proteger a si e ao outro.

No médico: Suas queixas são de diabetes e o exame acaba de confirmá-lo. Evite açúcar, doces, massas. Não sei como isso foi me acontecer. Nem gosto de doces. Sua uréia está alta, deverá comer menos proteínas como carne, ovo, leite. Pois é, além do preço atual abusivo, eu não como carne. Sou quase vegetariano. – A recompensa é readquirir taxas normais dos itens citados, evitando complicações.

Nos casos médicos acima, o sacrifício foi negado, mas pode ser uma informação falsa. Claro está que qualquer restrição alimentar leva a grandes penitências. À medida que a vida transcorre e vem a maturidade, problemas de pressão, glicose ou colesterol altos, para citar os mais comuns, exigem redução do consumo de sal, açúcar e gordura saturada. Tais cuidados precisam ser permanentes.

Na pandemia, tudo mudou de lugar, e há poucos meses, poucas pessoas se aventuraram a encarar o novo normal. Ainda relutavam em sair, exceto por necessidade. Os salões de beleza e as academias ficaram fechados por meses, e os profissionais dessas áreas passaram por maus bocados. Nunca se viu tantas mulheres abandonando a tintura habitual dos seus cabelos, voltando à cor original. Aquelas que têm cabelos grisalhos ou brancos, num aparente arroubo de coragem, pararam de esconder os brancos e fizeram discursos chamando para si a autenticidade e uma pretensa liberdade adquirida ao poder mostrar ser o que se é.

Por que logo no tempo em que os salões estavam fechados? Por que quando estavam disponíveis, não aconteceu essa tomada de posição e de consciência? A confissão de libertação das intermináveis sessões de tintura (pelo menos duas horas para retocar as raízes) a cada 20 dias custa caro e consome um tempo absurdo. É desperdício ou ganho de tempo? A mulher que durante anos pintava os cabelos e que de um dia para outro por desleixo deixa de pintá-los, sugere confessar ter entregado os pontos, desistido de tudo, não ter vaidade, e, a partir daí, tanto faz como tanto fez.

Claro que não estou livre de voltar atrás. A qualquer momento poderei me resignar, e mostrar ao mundo a minha fragilidade corporal e tentar suportar o desrespeito social. A idosa de imediato se torna uma anciã, muitos haverão de lhe ceder o lugar onde quer que vá. O cabelo não branco dá um ar não apenas de uma idade menor, mas também de força. Portanto, enquanto existir energia, pincel e tinta, eu pintarei os cabelos. Nesses dias tão iguais, é também uma forma de ver que o tempo passou. Desculpem-me os ofendidos. Ninguém precisa concordar comigo.

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