“Sim, sim”
Redação DM
Publicado em 12 de agosto de 2016 às 02:31 | Atualizado há 10 anosE o instrutor falava sempre ao Eduardo e demais adolescentes:
— Não faça isso, que é erro, e a vida cobra!
— Ah, tudo que se quer fazer é erro! Respondia ele, induzindo os colegas o imitarem, sem querer.
— Pra você separar, antes, o certo do errado, pense: gostaria eu, que alguém me fizesse isso? Pense! Se não, não! Se sim, sim!
O tempo rola e certa vez na rua à noite Eduardo passando à frente de antiga pensão percebeu a porta cerrada. Meia noite. Abriu a porta semiaberta e entrou na sala. Não havia ninguém. O dono da pensão dormia no sofá.
Ele cautelosa e silenciosamente pegou a TV e ia saindo quando uma placa de gesso do forro caiu fazendo barulho ao espatifar-se ao chão, acordando rápido o dono do local e alguns hóspedes.
O dono do local chamou a polícia que chegou em silêncio, mas rapidamente. Recolheu o adolescente, jogou-o no camburão sem nada dizer.
Na delegacia o puseram numa cela de piso com água.
— Fique aí, pensando.
E o guarda fechou a porta de aço deixando o rapaz sentado no molhado. Ele ouviu apenas o barulho das grades de ferro sendo trancadas.
No outro dia foi livrado pelo delegado. Um ano depois, passando em frente ao local de amparo onde viveu sua infância, resolveu entrar e rever seu antigo instrutor, a quem confessou o que lhe ocorrera, algum tempo depois que saiu de lá.
— Mas Seu Edson… Quando caí sentado e com as mãos no piso da cela, senti que era um local com água. Fiquei só e assustado. Mas senti que o senhor estava lá comigo me fazendo companhia. E passamos a noite. Sua presença parecia estar viva ali, dizendo-me o de sempre.
— Eduardo: não faça o que não pode. Pense antes: “eu gostaria que alguém me fizesse isso? Não? Então não faça. Sim? Então está livre”!
— Contei-lhe esse detalhe para lhe dizer que o bom conselho fica gravado na cabeça da gente, e não se apaga mais. Era só. Passei para lhe agradecer. Fique com Deus!
E se foi. Agora que ele se foi, posso contar ao leitor, expressou o instrutor do Eduardo:
— A lição aprendida por alguém voltou e terminou de ser repetida pelo mesmo instrutor ao pré-adolescente Luiz Ricardo que lhe perguntou:
— Isso foi verdade?
— Claro! Disse o instrutor. Você entendeu?
— Sim. Disse Luiz.
— Mas eu não esquecerei o “sim, sim, não, não”.
E saiu pensativo, foi juntar-se aos colegas.
(Iron Junqueira, via e-mail)