Brasil

Simplicidade

Redação DM

Publicado em 15 de julho de 2016 às 03:02 | Atualizado há 10 anos

Banho de chuva no calor, picolé na praça, banco de jardim, boa música, andar descalço, sonho de valsa ou prestígio, um solo de guitarra de BBKing, uma soneca após o almoço, dormir abraçadinho com o bem, uma gargalhada de criança, contemplar o trabalho de um trilheiro de formigas executando sua mais nova empreita em meu jardim.

Arregaçar as calças e brincar de carrinho de ferro, pega-pega, empinar pipa com uma criança e andar na enxurrada. Roubar goiaba do vizinho e chupar jabuticaba no pé.

Aprendi o que era a simplicidade com as crianças e com os matutos com quem convivi, gente muito simples, muitos que em nossa concepção urbana seriam vistos como indigentes ou como idiotas. Ficaria aqui meses listando coisas simples que aprendi a curtir na vida.

Outro dia ouvia um conhecido gabando se de sua mais nova aquisição. Uma nova caminhonete importada um foguete ultra potente exclusiva uma verdadeira fortuna, tração nas quatro rodas, dois sistemas de navegação semelhante ao conforto de um hotel quatro estrelas. O rapaz a comprou para viajar mais confortável e poder pescar com sua família. Mas assim que a tirou da concessionária se arrependeu, ficou com dó de seu mais novo bem e resolveu guardar ela em sua garagem. Sequer saia com ela na cidade por medo de assalto ou que batessem em seu precioso bem. Assim tornou se escravo de sua própria vaidade. Abandonou sua pescaria para não estragar seu carro novo. Sofisticou demais e perdeu sua alma e alegria de viver.

Nosso mundo é assim muita oferta, muita tecnologia, muitas possibilidades, muita mania, onipotência para pouca praticidade.

O problema psíquico que vivemos liga se diretamente a necessidade de nossa sociedade de consumo. Queremos muito para ter e não para usar bem o que temos. A vaidade que se instala por que adquirimos um bem é patética. E o principal problema disto tudo é que a maior parte do que adquirimos não faz o menor sentido para nosso espírito. Não nutre nossa carência e assim a satisfação é momentânea.

Muitas pessoas que hoje tem uma vida sem sentido mergulham com intensidade nesta sofisticação visando apenas agradar a sociedade.

Perdem suas metas e objetivos de vida e com isto camuflam sua insatisfação e os problemas de sua psique atrás de aparências, de uma casca que não se sustenta. Assim conhecem a fundo a literalidade da palavra vazio. Isto em médio prazo torna se uma melancolia intensa, uma vida sem graça, superficial que só faz sentido em uma sacola de shopping center.

A burrice apostólica natural percebida no evangelho quando os apóstolos proibiam crianças de se aproximarem de Jesus trazem a tona mais um ensinamento: “Deixe vir a mim os pequeninos por que deles é o reino dos céus o adulto que quiser conhecer a morada de meu pai deve tornar se qual uma criança.”

E a palavra chave que resume isto tudo chama se simplicidade que passa longe, bem longe de nossa sofisticação.

 

(Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista,pesquisador em Saúde Mental, psicólogo clínico e músico. Mestre em Antropologia Social pela UFG)

 

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