Sob um olhar panorâmico
Redação DM
Publicado em 16 de julho de 2016 às 02:54 | Atualizado há 10 anosAinda pela manhã dei início a um demorado passeio por todas as etapas do bairro com intuito de conhecer mais um pouco a minicidade que acabara de nos abrigar como um bom pai acolhe o filho.
De uma das partes mais altas do bairro, com o olhar aguçado de águia faminta, pude visualizar panoramicamente toda a extensão do complexo habitacional. Era esplêndido! Era realmente gigante! Fiquei por alguns minutos a contemplá-lo como uma ave de rapina que do alto da grande montanha, observa sua presa no território descampado. Enquanto eu admirava os milhares de casebres e seus telhados que manchavam o bioma com uma coloração avermelhada, olhares pueris, uns desconfiados e outros mais atrevidos, flertavam-me, através de pequenas aberturas de portas e janelas, tentando matar a curiosidade sobre minha estadia ali, ao mesmo tempo.
Meninos mais extrovertidos e, possivelmente, ingênuos de tudo, se aproximaram e começaram a fazer questionamentos:
– Chegou agora?
– De onde veio?
– E, chegou tarde, hein, tio?!
– Onde morava antes?
– Está gostando?
– Vem, mamãe vai lhe dá um café?
– Se veio capinar o quintal, cadê a enxada?
– Em qual casa mora? Eu moro naquela segunda de faixa vermelha.
– A de listra amarela é da minha mãe!
– Minha tia recebeu a de faixa vermelha, mas eu queria que fosse a de listra azul.
– Tem moeda?
– É do Conselho?
– Você é o prefeito?
Mães sem juízo, como podem admitir que crianças tão ingênuas se aproximassem de pessoas estranhas tão facilmente, num bairro novo que ninguém conhecia as intenções do vizinho? Não seria ali o paraíso dos pedófilos, dos traficantes ou dos perversos? Fiquei ambicionando a resposta do tempo e, astucioso, para não dá audiência, sem opinar ou esboçar alguma reação ousada, deixei aquele local com maestria e, após observar outros locais da minicidade, voltei para casa, pensativo sobre o futuro daqueles e de outros pequenos, caso não fossem desenvolvidas políticas de assistência às crianças, aos adolescentes e à juventude em geral, urgente…
Os extensos quintais das casas, todos ainda sem nenhuma forma de proteção, como um muro ou mesmo uma cerca de arame, permitia as pessoas passarem livremente pelos terrenos alheios, fosse pela frente ou pelos fundos das moradias. Notei que alguns proprietários não aprovavam muito a ideia da invasão, mas em geral, a violação já tinha virada rotina para todos. Até mesmo quem olhava meio torto para aqueles que invadiam os quintais, acabava trafegando velozmente pelos territórios dos outros, rumo à avenida, para evitar a perda do ônibus, já que se não conseguisse embarcar naquele, o próximo só passaria depois de uma hora ou mais. Em poucos dias, nós já havíamos habituados a ver as pessoas passarem pelo nosso quintal a todo o momento, fosse dia ou noite. Mesmo os quintais vigiados por cães ferozes e dentes afiados eram invadidos tanto por transeuntes, quanto por meninos para apanhar pipas, bolas ou qualquer brinquedo seu que caísse nos quintais próximos.
– Carlos!
– Bruno! Bruno!
– Gérson!
– Paulo, meu filho, venha já para casa!
– Pedro! Alguém viu o Pedro Henrique?
– Júnioooooooooooor! Vem para casa, moleque!
– Erich…
– Pituca!
– …
Gritos parecia ser rotina de muitas mães, numa tentativa vã de conservar seus filhos residência adentro, mas a nossa impressão era de que nem mesmo amanhecia o dia e eles ganhavam o mundo.
Horas depois, um menino de doze anos que invadiu o quintal de uma das casas próxima à nossa, para tentar recuperar uma pipa lançada pelo vento, teve sua perna abocanhada por um cão raivoso. Um dos meus irmãos nem conhecia a família do traquina, tampouco o bairro, mas conseguiu levar a vítima à casa dos pais que, pareceu não ter importado muito com o ferimento da criança, sequer perguntou o que havia acontecido! Pais estranhos, nem olharam o grau de profundidade do ferimento na perna do filho, muito menos questionaram se o cão era vacinado, ignoraram o fato, simplesmente.
À tarde, um cidadão desconhecido foi espancado por moradores que o acusava de ter atentado contra um menino que fora com um grupo de amigos tomarem banho num pequeno córrego nas imediações da minicidade. Depois de espancá-lo, a vizinhança acionou a polícia que, ao chegar não conseguiu nenhuma prova que condenasse o cidadão, nem mesmo passagem pela polícia o suspeito tinha. À noite, os agentes policiais solicitaram uma ambulância e encaminhou o homem espancado a um hospital da metrópole. Dias depois a população do bairro soube com tristeza que tudo não havia passado de um equívoco, pois o suposto estuprador ou pedófilo era simplesmente um trabalhador que morava em outra região do gigante metropolitano e estava na minicidade visitando parentes.
O acontecimento alargou nossa visão sobre como possivelmente seria o bairro, porém não foi suficiente para tirarmos conclusões imediatistas, visto que entendíamos que precipitar é como fazer justiças com as próprias mãos, a gente sempre acaba por cometer injustiças.
(Gilson Vasco, escritor)