Sobre o Enem (II)
Redação DM
Publicado em 8 de novembro de 2016 às 01:32 | Atualizado há 10 anosCom esse título, publiquei uma crônica em 2013, criticando o assim chamado Enem – Exame Nacional do Ensino Médio. De lá para cá, as coisas só pioraram.
Acentuou-se o aspecto “de guerra” que caracteriza o Enem, com seus números gigantescos, seu esnobismo pedagógico, sua feição autocrática – espécie de ordálio a que são submetidos os estudantes brasileiros, concluintes do ensino médio.
Como sabemos, ordálio é um tipo de prova judiciária, usada para evidenciar a culpa ou a inocência do acusado por meio da participação de elementos da natureza, e cujo resultado é interpretado como juízo divino. Em sua versão mais antiga, a mulher acusada de adultério deveria beber a “água da amargura”, vale dizer, contaminada; se não adoecesse nem morresse, era tida por inocente – e “então será livre, e conceberá filhos” (Antigo Testamento, Livro dos Números).
Na Idade Média, pessoas acusadas de crimes foram submetidas ao “juízo de Deus”, colocando os braços em água fervente, segurando bolas incandescentes de ferro ou caminhando sobre carvão em brasa, quando não deveriam manifestar sofrimento. Houve casos em que isso de fato aconteceu; segundo alguns, devido a fatores psicológicos que os isentavam da dor e até de lesões físicas. Para outros, tais “milagres” resultariam de conluio entre o acusado e os encarregados da encenação.
Com o Enem, pretende-se avaliar o desempenho do aluno ao término da escolaridade básica, bem como o desenvolvimento de competências fundamentais ao exercício pleno da cidadania. O que parece no mínimo temerário, em se tratando de avaliação única e feita sob pressão.
Muito embora se diga opcional, esse Exame acaba sendo compulsório. Além de substituir (total ou parcialmente) o vestibular, é exigido para o acesso ao Prouni (bolsas de estudo); ao Sisu (Sistema de Seleção Unificada para universidades públicas); ao Ciência Sem Fronteiras (estágios no exterior) e ao Fies (financiamento estudantil). De onde se conclui que, quem optar por não se submeter ao Enem, estará excluído de tais programas.
Voltemos ao ordálio. Para ser vitorioso nas provas do Enem, o estudante há que resolver, no tempo aproximado de nove horas e num único fim de semana, algo em torno de 90 questões que versarão sobre diferentes áreas de conhecimento. Além de uma redação, que necessariamente seguirá a padronização imposta pelos sábios das equipes contratadas (a peso de ouro) pelo MEC.
A pressão sobre os candidatos começa cedo: mal saídos do ensino fundamental, adolescentes de 14/15 anos são forçados a ajustar suas características individuais aos conteúdos oficiais e à maneira que lhe é imposta, de pensar e de raciocinar. As provas do Enem são como “juízos de Deus” – instância pedagógica final, porquanto ditam os currículos escolares, as avaliações semanais das escolas, a formulação dos problemas, os temas das redações. Queira ou não, o aluno deverá adaptar-se e curvar-se ao enciclopedismo de incontáveis e mal digeridas disciplinas. Além de assimilar a pregação ideológica subjacente, que parece ser o objetivo não declarado do autoritarismo pedagógico assim exercitado.
Similar ao Enem é o exame nacional realizado na China, quando são compulsoriamente separados os jovens que irão para as universidades ou para o ensino técnico. Naquele país sabidamente totalitário, parece que a intervenção estatal tem resultado em progresso científico e tecnológico, possivelmente viabilizado por um sistema educacional eficiente, mas destituído de liberdade.
No nosso amado Brasil, onde estão as melhorias do ensino nos anos de vigência do Enem? Em todas as avaliações nacionais e internacionais o desempenho dos nossos estudantes só tem piorado. Pressão, concorrência e cobranças exacerbadas não são o melhor caminho para desenvolver a disciplina intelectual e o gosto pelo estudo. Nem mesmo para a convivência entre colegas, ou a fruição de etapas da vida que deveriam ser de descobertas prazerosas.
Entristece-me esse frisson de competição, de logística (quase) bélica, de regras e mais regras para algo que deveria ser tranquilo: avaliar os jovens em seu desempenho escolar e selecionar aqueles aptos a seguirem seus estudos em nível superior. Essa avaliação deve ser continuada e permanente; jamais fruto de um momento único, quando fatores diversos possam prejudicar (ou ajudar) determinados candidatos.
É preciso mudar e mudar urgentemente – o que será muito difícil. Até porque é enorme a teia de interesses envolvidos. E nada do que se faça terá êxito sem uma efetiva melhora do ensino de nível médio. Único caminho para que, de fato, se alcance a desejada igualdade de oportunidade para todos.
(Lena Castello Branco, escritora. E- mail: [email protected])