Brasil

Sobre o estupro na UFG, na vida, na política e na democracia

Redação DM

Publicado em 16 de junho de 2016 às 02:59 | Atualizado há 10 anos

O discurso de pedir mais policiamento, mais iluminação, segurança, etc. na UFG é legítimo, mas não podemos reduzir a discussão do estupro apenas a isso. Faz parecer que a universidade é uma ilha, isolada do restante da sociedade. O caso de estupro que aconteceu (dentro ou fora da UFG, tendo a vítima largada lá) é só o reflexo das políticas públicas do nosso estado, onde precisaram 15 mulheres serem assassinadas em série em 2014 pra se atentarem pra violência de gênero que estava acontecendo. E também não está dissociado com o golpe no Brasil, onde derrubaram a primeira mulher eleita presidenta e que mais fez políticas públicas para as mulheres. Estão estuprando as mulheres. Estão estuprando a democracia.

Pra quem não sabe, segundo o Mapa da Violência Contra as Mulheres de 2015, Goiás é o 3º estado que mais assassina mulheres. Isso mesmo! Somos o 3º estado com o mais alto índice de Fe Mi Ni Cí Di O (pros homens que não sabem ainda o que é isso: é o homicídio contra mulheres por questões de gênero). Pasme: entre 2003 e 2013 a taxa de feminicídio em Goiás cresceu 89,5%! Entre as mulheres brancas cresceu 46,7%. Mas esse não era o pior índice. Adivinha com quem ficaria a pior estatística! Com as mulheres negras! O feminicídio contra as mulheres negras cresceu 158,1% no mesmo período. E aí a gente pressupõe que no mínimo essas mulheres tiveram algum atendimento. Mas é aí que a gente se engana feio, ou melhor, o estado nos engana! Mesmo Goiás sendo o 3º estado com mais feminicídios no Brasil, ele é apenas o 17º em atendimento às mesmas vítimas, que são, em sua maioria, mulheres entre 18 e 30 anos (o perfil da vítima do caso na UFG). Isso porque estamos falando apenas da parte final do Ciclo da Violência Contra a Mulher, que envolve a Violência Financeira, a Violência Psicológica e Simbólica, a Violência Sexual e a Violência Física, que pode culminar no feminicídio. Imaginem os dados da quantidade de mulheres que sofrem agressão e da quantidade de mulheres que são estupradas! (Esses dados nós temos de imaginar, porque o Governo do Estado não teve a presteza de processá-los e disponibilizá-los).

Tendo em vista as manifestações do caso recente de estupro, que reivindicam uma posicionamento da Universidade Federal de Goiás eu digo à vocês: eu quero sim que a UFG se posicione sobre este caso. Mas eu quero mais ainda que o Governo de Goiás se posicione sobre este e tantos outros casos recorrentes de violência contra a mulher no nosso estado. Eu quero que o Governo de Goiás, que reduziu a Secretaria de Mulheres a uma mera diretoria do bolsão da Secretaria Cidadã, exista para as mulheres; que faça políticas públicas para as mulheres, que estruture as Delegacias de Mulheres, que invista dinheiro nas políticas para as mulheres. Enquanto não exigirmos isso, casos como o de hoje continuarão se repetindo. E mais grave, a grande maioria não terá a mesma repercussão e mobilização, porque acontecem com a mulher, probre, negra, da periferia ou do campo e que não está na universidade.

#MarconiSePosicione #PeloFimDaCulturaDeEstupro #ForaTemer #ForaMarconi

 

(Karol Santos, publicitária e feminista graduada pela UFG)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia