Brasil

Somos sempre vítimas!

Redação DM

Publicado em 16 de outubro de 2015 às 22:32 | Atualizado há 11 anos

Você não escolheu errar, mas pode escolher não sofrer. Desde os primórdios da vida humana na terra, por mais rudimentar que seja, o homem sempre foi vítima. Seja pelo medo da morte – uma certeza que mais cedo ou mais tarde irá fatalmente acontecer –, da fome, das doenças fatais, da miséria, da inveja, da ingratidão, do racismo, do furto, do roubo, do trânsito, da falta de dinheiro, da injustiça, da mentira, do preconceito, da ambição, do infortúnio, da insegurança, da calúnia, da difamação, da fofoca, da infelicidade, do descrédito, do oportunismo, do abandono, do trabalho excessivo…

Conheço uma pessoa que diz, com frequência, aos seus interlocutores que se aventuram a reclamar de alguma coisa para ela: “Pare de se colocar na condição  de  vítima!” Confesso que essa exclamação me chamou a atenção. Após analisá-la e interpretá-la hermeneuticamente, cheguei à conclusão que, na verdade, toda pessoa sofre de “vitimologia”. Isso, aliás, independentimente da sua condição social e financeira, intelectual, conjugal, espiritual e muito mais. Somos, ao longo da vida, mais vítima do que autor, apesar de achar que isso não seja verdade. Um abismo que poucos buscam corrigir – se é que há correção.

Pelo simples fato de termos medo de alguma coisa já é suficiente para nos transformar em vítima. Diariamente, evitamos, de forma direta e indireta, que venhamos a sofrer injustiças para não sermos vítimas sociais, e mesmo assim,  sofremos ou presenciamos  constantemente violência psicológica/moral, e violação de seus direitos. Mas, por mais esforço que empregamos, acabamos por mergulhar nesta maldita profundeza. Seja numa simples relação de consumo, no âmbito profissional ou até numa relação amorosa. Tentamos evitar isso. Contudo, ficamos à mercê do risco, o que nos transforma em vítimas latentes.

A “vitimologia” está impregnada em todas as camadas sociais. Aliás, as pessoas abastadas podem ser chamadas de vítimas latentes porque, pela sua condição sócio-econômica, atraem criminosos em função da sua situação. São mais passivas que as demais no que se refere à insegurança – esse medo cada vez mais agressivo que está inserido em nossa sociedade. Por ser rica, se sente perseguida diante de uma sociedade cada vez mais ávida por dinheiro.

Pelo simples fato de termos receio de alguma coisa já é suficiente para nos deixar na condição de vítima, já que ficamos à mercê da submissão. Uma mulher, por exemplo, que convive com o esposo alcoólatra, traz consigo essa predisposição, haja vista que o seu pai também poderia ter ingerido bebida alcoólica na juventude e parte da fase adulta – talvez ela escolheu o marido à imagem do pai, o que a faz seguir este caminho na ânsia de recuperar o parceiro dessa doença constrangedora. Neste caso, dificilmente a mulher abandonará o marido. Ela é “vítima subjetiva” de seu companheiro devido a uma herança paterna.

Jean-Paul Sartre, ao longo da sua rica trajetória vida intelectual – era um obstinado pelo saber – dizia que detestava as vítimas quanto elas respeitavam demais os seus carrascos. Com o peculiar respeito ao filósofo francês, mas não podemos colocar em prática o seu pensamento hoje porque somos vítimas eternas de uma sociedade que aprendeu a conviver com o egoísmo, com a corrupção e com o flagelo social.

O homem, sobretudo o contemporâneo, aprendeu a conviver com a submissão social. O Estado é vítima dos corruptos e, por consequência, a população transforma-se em vítima da inaptidão dos governantes. Por mais que tentamos escapar, acabamos por nos transformar em vítima.

Aliás, isso me faz lembrar o poeta e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar: “Se errar é azar, se acertar é sorte, se amar é destino, você é vítima da vida e ainda não fez nada.” Que atire a primeira pedra quem nunca foi vítima um dia! Eu, particularmente, desconheço qualquer ser humano que nunca foi vítima de nada.

Por fim, gostaria de ressaltar que nós, pobres mortais, também somos vítimas do egoísmo e da inverdade. No mundo chamado contemporâneo praticamente não temos tempo para argumentar quase nada. Quando conquistamos uma amizade, como ensina o bom princípio, devemos cativá-la e cultivá-la. Porém, hoje em dia é comum destruir uma amizade por causa da inveja, do egoísmo, e até mesmo da era digital. Ademais, aproxima quem está longe e distancia quem está perto.

Devemos, sim, valorizar tudo que norteia os parâmetros da dignidade e do respeito ao próximo, evitando, assim, a “vitimologia” do egoísmo. Devemos dizer não à demagogia e aos preconceituosos. Certa vez, Mário Quintana questionou: “Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não aguenta os que continuam vivos?”

Na grande trajetória da vida, enfrentamos dificuldades gigantesca, mais isso, não significa que devemos desistir de  lutar e se colocar na posição de vítima. Não somos coitados para vivermos enfraquecidos e perdendo a oportunidade de crescimento e nova experiência  que a vida nos oferece. somos livres e podemos viver em paz e confiando em se mesmo.

Neste caso, pelo o fato de não refletirmos e reconhecermos nossas falhas, sempre seremos vítimas do egoísmo e nossos erros.

 

(Maria Ferreira de Araújo é escritora, assistente social e pós-graduanda na área da psiquiatria (Saúde  Mental com Abordagem Psicossocial). Email: [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia