Sozinho a dois
Redação DM
Publicado em 10 de setembro de 2016 às 01:30 | Atualizado há 10 anosUm casal à caça de aventuras: “picanha e cerveja”, programa típico de Goiânia. Contudo, a multidão presente à ocasião pouco diz ao casal que raramente conversa. Tão diferentes, mas juntos.
Diálogo raro a não ser o trivial, um ou outro grunhido indecifrável, falas que resumiam-se a um discurso monossilábico: “Hum, hum”. O vento do ártico quieto dizia sempre mais. Ali no bar tanta gente, mas no fundo é como se não houvesse ninguém, a não ser o espetinho no prato, a mandioca cozida e uma ou outra interlocução com o garçom. Diálogo mudo! Ela ainda tenta rememorar algo interessante para puxar assunto, como a última fofoca da revista predileta dos salões de beleza. Ele, para se vingar, lembra-se do som novo de seu carro e de seu mecânico predileto. A conversa é assassinada à mesa. Em casa não é diferente, só que no centro da temática vem a televisão, seja pela novela ou pelo jogo.
É a magia do amor… já viu isso ou viveu isso? O que sentiu?
Vida de alguém sozinho a dois é assim. É ter alguém que de verdade não existe. É conviver com um coadjuvante que imita abajur em cena principal. É exercer um papel social de fachada. Algo tão comum e tão miserável. Interessante qual discurso de político falando de ética ou de moral…
Existe em relacionamentos afetivos duas bases que constituem o alicerce principal de uma relação: companheirismo e respeito. O companheirismo é o que também podemos chamar de lealdade. Este é o que mais demarca a durabilidade de uma relação por trazer em seu constitutivo a chamada amizade.
Todavia, ser leal é algo muito além de “picanha e cerveja”, de domesticar o convívio. Só sentar-se ao lado e fazer tipo, funciona qual desfecho de CPI de TV sem graça. Investir na relação é ousar, gostar de trocar com o parceiro mais que o trivial, é compartilhar a vida, anseios, ideais. Transformar a rotina em diversão.
E buscar ser agradável, dar ao outro alegria, tranquilidade, tentar fazer a quem amamos sorrir, o que deve ser compreendido como respeito. Você faz isso?
Estar “sozinho a dois” é um estado que independe do grau de envolvimento. Pode acontecer com paquera, namorados, noivos, casais, amigos e um oceano de gente indissociada.
Situação que a médio e longo prazos aumenta a carência afetiva, a solidão, raiva, instabilidade emocional, medo e agressividade. É um passo para o fim de um relacionamento. Gera uma situação afetiva de insegurança e indefinição. E o pior de tudo, o sentimento de abandono intenso. Abandono que tem uma significação simbólica curiosa.
O simbolismo do abandono corresponde ao mesmo aspecto que o do “objeto perdido”; ambos são paralelos simbólicos ao da morte e da ressurreição. Sentir-se abandonado é, essencialmente, sentir-se deixado pelo “Deus em nós”, pelo componente eterno do espírito, projetando numa situação existencial esse sentimento de extravio, que também estabelece relação com o tema do labirinto.
Assim o abandono retrata o estar perdido, sem norte, sem possibilidade de ver futuro, em agonia. Um passo antes do fim…
Arquetipicamente o simbolismo do abandono é um dos mais difíceis de se integrar a afetividade, pois suscita a traição do objeto amado, algo inconcebível ao afeto.
E poucas pessoas observam que o erro não está apenas no parceiro, mas em si próprio.
Você tem feito sua parte para ter e viver um relacionamento legal? Busca agradar a quem está ao seu lado? Ou presta atenção apenas em si próprio e o outro é problema dele próprio?
O assassinato atual da socialização que permeia também o envolvimento afetivo está no egoísmo e no aumento da agressividade de boa parte das pessoas. Se existe amor deve existir carinho, cuidado, respeito… caso contrário, boa solidão!
(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo)