Tem gente que não está dormindo
Redação DM
Publicado em 17 de maio de 2016 às 02:34 | Atualizado há 10 anos
Os atuais acontecimentos evidenciados pela conjuntura nacional sinalizam que estamos no fim de um tipo muito comum de se fazer política desde que Cabral aportou nesta terra: o patrimonialismo.
A respeito desse assunto, convém lembrar as palavras dos sábios filósofos da ciência política, como é o caso do italiano de saudosa memória Norberto Bobbio. Leciona, esse grande pensador, em seus escritos, que “o Estado patrimonial é aquele Estado no qual o soberano detém o território do Estado como propriedade sua.”
Quantos de nós, que labutamos com a coisa pública, no nosso ganha-pão de cada dia, vimos coisas que os olhos fingiam não ver, mas o coração sentia? Coisas tão próximas dos príncipes, de suas cortes, de parentes e amigos, amantes que sempre foram da estrutura do Estado. Eram eles os “donos do poder”, que tanto nos fala o jurista, também de saudosa memória, Raimundo Faoro. Ou “Estado Cartorial”, como bem revela o cientista político Hélio Jaguaribe. Patrimonialismo e corrupção sempre foram uma espécie de irmãos siameses. Privilégios, também.
Creiam: por trás da astúcia dos discursos políticos que justificavam obras “em nome do desenvolvimento” sempre se esconderam os sanguessugas do patrimônio público, hoje, visíveis a olho nu. Velha conhecida das instituições públicas, a propina desmascara corruptos e corruptores. Propina que produz o superfaturamento de obras públicas. Propina que sempre financiou automóveis de luxo, mansões, viagens para os melhores recantos do planeta com direito a primeira classe e hotéis repletos de estrelas. Sim, as vísceras dos subterrâneos do poder se tornam mais visíveis num país que anseia por mudanças.
O instrumento da delação premiada da operação lava-jato faz do entrega em entrega uma questão de sobrevivência. Além disso, convenhamos: é altamente positivo presenciar velhos conhecidos se tornarem visitantes assíduos da Polícia Federal. Quem não deve não teme. É a nova ordem de valores dando um pontapé em uma porta já podre. Que tem muita gente sem dormir, ah! Tenham certeza de sim. O Brasil, o povo de Goiás e a fase mais visível do Estado. Patrimonialismo em Goiás — as obras superfaturadas — que levaram à falência da Celg, agradecem. Há sim uma luz no fim do túnel. Basta as instituições fazerem o que hoje fazem: pulsarem no estado democrático de direito. Assim, reconstruindo uma nação que sempre pertenceu a poucos.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de A Construção de Goiás)