Tenho um florista
Redação DM
Publicado em 24 de janeiro de 2016 às 21:54 | Atualizado há 10 anos
Os cinéfilos de plantão, as pessoas de bom gosto e os sonhadores em geral hão de se lembrar de um filme de Chaplin. A florista é apaixonante. Porém as flores são mais. Meu florista tem a minha idade, é alto, de mãos finas, cuidadoso e fala mansa. Já descobri que ele conversa com seus ramalhetes. Sua casa é de esquina, mal dá para estacionar. O balcão pequeno, contudo o cheiro é esplêndido.
Durante décadas está instalado ali. Eu o visito mensalmente, para ver as novidades e saber como está o fluxo de flores. Apelidei esse fenômeno de termo-amor. Explico. Dias dos Namorados, Dia das Mães e Finados são marcantes e mostram como a população se comporta de acordo com suas paixões.
Por incrível que pareça vende mais em maio, depois novembro e por último o doze de junho. Mãe não acaba, mãe é eterna. Rosas ainda imperam. Tanto o filho como o parceiro, presenteiam. Hoje há uma tendência para gérberas. Multicoloridas, diversas como a atual sociedade. Hastes longas, margaridas do século XXI. Ele me explica que são quase pragas. Uma época – em que Goiânia tinha jardins – era fácil vê-las ornando nossas ruas.
Para o dia do silêncio, cravos são comuns. Há uma associação floral entre a lembrança do ente querido e do casamento. O que vai na lapela, depois ornamenta a lápide. Muito compradas são as astromélias, que na minha infinda ignorância, pensei que fossem lírios. Comprei um pequeno buquê para a minha mãe, logo que as vi a primeira vez. Isso tem dez anos. Muitas noivas se encantam com a classe e singeleza delas. Eu gosto dos traços, da sensação de evanescência.
Flores para homens também existem, mas é raro. Uma mulher que compra um vaso de crisântemos, ou uma discreta cactácea, e presenteia seu parceiro, merece minha admiração. No meio do ano abundam as rosas. As vermelhas são imbatíveis, mas os vários tons que entremeiam o rubro é o mais bacana. Aprendi que despetalar um pouco não significa destruir e sim preservar. Um leque somente de botões é muito elegante. Para que no dia seguinte se abram em profusão amorosa.
Quando me casei – e já se passaram vinte e cinco anos – a noiva empunhava um buquê de rosas vermelhas com gipsofilas. Para quem não conhece, são minúsculas pérolas brancas de campo. Maravilhosas, delicadas e autênticas. Certa feita presentei minha filha com um buquê somente delas. E depois ela ornou seus cabelos loiros com uma criativa tiara. Ficou mais bela ainda.
Meu melhor amigo ama tulipas. Elas estão na moda, suas sementes de geladeira são difíceis de cuidar. O tempo brasileiro não as favorece em nada. Contudo o efeito de uma dúzia de tulipas nas mãos de uma bela mulher é igual ao amanhecer, uma catarse! Elegância sem fragrância, uma pena. Lá na Holanda, pude cheirá-las de modo inconteste. Aqui fica a classe das cores e a perfeição das pétalas.
Existem flores e flores, tais com as dálias que cultivo em um vaso de bonsai. Ou então as caliandras – tanto as rosas como as vermelhas – do nosso riquíssimo cerrado. As estrelicias são tão peculiares e com seu perfil espetado e multicor que até inibem as pessoas diante de tamanha beleza e precisão de combinações insólitas. O meu florista explica que tudo pode ser encomendado e comprado. Mas nada se compara aquela que é colhida no jardim ou no campo. Ou presente de impulso, sem motivo qualquer, só a flor e quem recebe sabe da surpresa do belo, vindo do nada.
Eu que rodo a cidade inteira de moto, carrego – vou confessar-lhe querido leitor – em meu alforje uma tesoura grande, um podão. Desço sem cerimônia em jardins públicos e faço minha coleta e colheita. Chegando em casa escolho o vaso – tenho vários – e enfeito o meu lar. Dou uma espargida com meu borrifador e coloco gelo na água. Pois tenho um florista que me orienta.
Desde sempre faço isso. Meu mestre floral foi o único que soube desvendar o mistério da minha tão grande paixão por flores e plantas em geral.
– Você casou com uma grande dama, uma rosa clássica. E depois teve outra flor esplêndida como filha. Essa beleza que o cerca, o inspira é o que o faz viver em sorrisos.
Só tenho a agradecer, por estar assim cercado de floramor.
JB Alencastro é médico e escritor)