Brasil

Tentáculos impodáveis – Parte II

Redação DM

Publicado em 25 de maio de 2017 às 01:32 | Atualizado há 9 anos

A primeira providência do novo gerente Executivo foi vistoriar os meandros da lavoura de maracujás. A princípio foi curioso, porém, prevenido pelos subgerentes imediatos, com jeito para não provocar abalo nos esteios que sustentavam as bases dos estaleiros, bem como para não agitar as lagartas pelo de veludo, pois, uma vez agitadas, destilavam um veneno que sapecava e provocava reação em cadeia, o que buliria com o estaleiro por completo. Mas Gentil Brado limitou-se a ajeitar o nó da gravata, gesto que parecia uma bravata a reles recomendações.

Notou logo a ausência dos maracujás antigos, os enrugados e os azedos, não conseguindo distingui-los bem entre os pequenos, que ainda que estes fossem maioria. As folhas dos maracujazeiros pareciam saudá-lo com movimentos provocados pela brisa, a qual, por aqueles lados soprava com menos intensidade. De passagem os pequenos e diminutos eram acariciados pelo Executivo, cujos pensamentos os tinham voltados para eles, considerando que careciam de maior atenção. Ali estava a garantia de uma boa safra, caso não quisessem continuar trabalhando no vermelho.

O novo gerente Executivo chegou logo à conclusão de que a gestão anterior fora pusilânime em todos os sentidos. Foi aos poucos despertando para a realidade cruel: a Fazenda estava depauperada. O prejuízo com as despesas de manutenção dos maracujás antigos, tanto os enrugados quanto os azedos, era evidente. Precisava baixar os custos destes. Antes tivessem cortado o mal pela raiz, colhendo-os no tempo certo e enviando para as indústrias de suco.  No lugar do outro não teria deixado tudo cair na incúria. Mas agora seriam novos tempos. A expectativa de que recuperaria a Fazenda Tubipirama era enorme por parte de todos da comunidade local. Era preciso arregaçar as mangas e pôr a casa em ordem para a retomada da frutificação. Enxugando o rosto com um lenço providenciado pelo capataz secretário, pensava nas medidas drásticas que havia de tomar.

Uma de suas primeiras providências foi a de identificar os maracujás enrugados e os azedos no meio do emaranhado de tentáculos e cipós em que se tornaram os estaleiros. No entanto, fora prevenido pelos capatazes imediatos de que esta não seria uma tarefa fácil. Os tentáculos do cipoal tinham tomado tamanha proporção que os estaleiros estavam unidos formando uma inexpugnável teia. Às vezes se podia ver um ou outro entranhado no cipoal, mas chegar onde estavam era outra estória. Para isto era necessário o uso do facão, o que não lhe fora recomendado, pois poderia causar abalo na estrutura dos estaleiros, fazendo-os ir ao chão. E tal providência teria de ser em conformidade com outras áreas da Fazenda, onde o consenso era o mesmo que tirar leite de pedra. Então, o jeito era vê-los de longe, luzidios, corados, tendo de se resignar com o enrugamento e azedume deles?

Não era o que pensava o gerente Executivo que, certo dia, tomado de um repentino rompante, muniu-se de afiado facão, resolvendo enfrentar aquele cipoal onde se instalara diversos vespeiros. Precisava conhecê-lo em profundidade para avaliá-lo melhor. Não obstante o emaranhado de tentáculos do cipoal, outro fato inesperado ocorreu: as lagartas pelo de veludo, das quais fora avisado e não dera a devida atenção, o atacaram impiedosamente. Como um desvairado pela coceira atroz, o gerente saiu às carreiras, arrebentando no peito intrincadas teias de cipós, abalando os estaleiros, mas não o suficiente para os derrubar. O advogado Honório Salvador foi o único que presenciou este fato, mas nem ele mesmo soube ao certo o que enxergou realmente. Apenas, ao esbarrar no Executivo, referiu-se a ele com mesuras, embora este nem mesmo o tenha percebido devido ao estabanado da situação.

– Desculpe-me, Excelência.

Concluiu assim o Executivo que se insistisse em adentrar o cipoal sem o apoio dos capatazes imediatos seria suicídio. Mas estes não queriam se comprometer e de fininho iam tirando o corpo fora. À noite, ao se deitar, ficou pensando em uma outra solução possível para ganhar a simpatia dos imediatos.  Era uma árdua tarefa aquela. Havia feito várias promessas de um saneamento efetivo, podas contumazes dos tentáculos para diminuir o cipoal, com isto propiciando o crescimento dos frutos pequenos, que seriam a solução da lavoura. As flores então necessitavam de um cuidado especial, com um outro processo de polinização que não fosse o manual, mas nesse item, como em muitos outros, faltava-lhe apoio.

Outra solução radical seria a pulverização maciça, com fungicidas e inseticidas para evitar que as lagartas pelo de veludo subissem pelos caules e chegassem aos tentáculos. Só assim seria possível um reconhecimento geral. Os venenos usados até então tinham um efeito pífio, ou nenhum efeito. Seus pensamentos deram voltas enormes, evitando o cipoal à sua frente. Foram alcançar o seu passado, quando, em uma Fazenda de menores proporções, administrara uma plantação de chuchus, onde não teve tanta dor de cabeça como agora. É certo que no começo houve alguma com os chuchus endurecidos, quando foram colhidos e atirados aos porcos. Quanto aos pequenos, teve de se empenhar para dar melhores condições de crescimento a eles, antes que endurecessem de vez.

Contratempos houvera. Lembrava-se de quando precisou ter pulso forte: andava a procura dos endurecidos, quando escorregara em uns chuchus apodrecidos que estavam sob a extensa latada e ficara estatelado no chão por alguns segundos com o lado esquerdo adormecido. Ao tentar se levantar, enquanto se recuperava, um enorme e endurecido chuchu que vinha do alto despedaçara-se na sua cabeça. Ainda bem que já havia passado a etapa de endurecido, estando definitivamente podre, o que amenizou o impacto. Olhando para cima, para a sua direita e esquerda, viu o perigo em que se encontrava, com tantos chuchus endurecidos a ponto de despencarem de seus talos. Não era bom brincar com a sorte (era raro cair no mesmo lugar duas vezes seguidas), por isso saiu de mansinho, pé ante pé, não permanecendo nem mais um segundo sob aquela latada.

Adormeceu num sono leve. Mais tarde ficara mais profundo, quando em sonho imagens vieram fervilhar naquele cérebro que não desligava da realidade. As primeiras mostravam-no em uma sala almoçando. Numa panela havia chuchus cozidos e numa jarra ao lado suco de maracujá. Aconteceu que ao tentar espetar os chuchus com o garfo estes saltaram da panela aos magotes, temíveis, acúleos enormes e acusadores aproximando-se da sua face para espetá-lo. Teve sede. Levou a mão à jarra, mas ao entorná-la para o copo saíram de dentro enormes maracujás mostrando o azedume na cara; em seguida caíram os bojudos enrugados. E juntos, chuchus e maracujás, caminharam para ele, amedrontando-o, fazendo-o recuar rumo à porta.

No mesmo instante, do lado de fora, bateram violentamente na porta. Quem seria? Abriu-a num ímpeto e se sobressaltou pasmo ao ver uma multidão de chuchus e maracujás que protestava aos brados retumbantes contra o que ele não sabia. Notava que estes não eram como os que o expulsavam para fora: eram pequenos, mirrados, impróprios para o consumo. Observou uma faixa com os dizeres “Queremos Adubo”.

As outras imagens que se seguiram mostravam-no numa indescritível angústia. Estava encurralado entre os primeiros e aqueles que ora chegaram protestando. Desabou a correr, esmagando alguns pequenos chuchus e maracujás, ao seu encalço prorrompiam os endurecidos, os enrugados e os azedos. Sentiu um miasma desconfortável vindo de distantes áreas, onde se cultivava outras variedades de frutas. Alucinado a correr, sentindo apenas o estalar dos legumes e frutos sob o peso de sua pesada bota. Sem perceber entrou ofegante em um grande cipoal, que para ele se abrira como por encanto, e ficara ali se escondera entre maracujás enrugados e azedos, arquejando sob o olhar questionador dos seus perseguidores. Estes, procurando espaço, espremiam-se, enquanto vozes acalentadoras, de dentro do cipoal, chegavam aos ouvidos de Gentil Brado.

– Acalme-se! Aqui dentro estará protegido…

Uma luz matinal batera de cheio no rosto do gerente Executivo, despertando-o. Abanou a cabeça num sobressalto. Suava frio. Viu que da janela, aberta pelo secretário, vinha uma luz que inundara seu quarto. Que ele acordasse, o trabalho o esperava. Avisou o capataz secretário.

 

(Joaquim de Azevedo Machado, professor e escritor – [email protected])


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