Brasil

Tentáculos impodáveis – Parte III

Redação DM

Publicado em 1 de junho de 2017 às 01:31 | Atualizado há 9 anos

Correram dois anos e tardavam as mudanças de que todos necessitavam. Protelava-se. Os trabalhadores da Fazenda que em Gentil Brado depositaram grande confiança, já não viam nele o destemido executivo que viera precedido de enorme fama para sanear o maracujazeiro da Fazenda. Esta, com efeito, continuava em situação até mais precária do que antes de sua chegada. O que se via agora era o espaço cada vez mais reduzido para os frutos pequenos, sendo tomado por obscuros tentáculos. O carroceiro recomeçara na tarefa de transportá-los em caixas para os lados do riacho. Os enrugados apodreciam no lugar sem que ninguém viesse colhê-los, os azedos não mostravam nenhuma doçura, se é que a tivessem algum dia. A grande safra não viera, faltavam irrigação e adubo para as mudas e os pequenos, que não vingavam, as flores caíam e feneciam no chão enlameado dos estaleiros.

Já não era tão difícil ver os maracujás, principalmente os enrugados e os azedos. Entretanto, não se via com facilidade o Executivo. Era mais fácil ao se abrir a janela pela manhã e se deparar com tentáculos invadindo o quarto, com maracujás enfileirados no parapeito, do que o rosto de Gentil. Ele não aparecia, mas a cada dia mais os enrugados e os azedos amadureciam e apodreciam na sombra dos estaleiros. Sem serem apanhados, ficavam sujeitos aos parasitas ou insetos que se acercassem deles.

Ao contrário da safra do segundo ano, a do primeiro fora razoável, apesar da contenção de gastos. Mas o preço estava em baixa, devido à superprodução de outras Fazendas. Com efeito, se alguém abria a geladeira para tomar água, o que achava? Suco de maracujá. Nas feiras já não se encontravam outro tipo de fruta a não ser maracujá. E ninguém mais queria comprar maracujá, pois a produção excedera o limite tolerável. O efeito de tanto suco, por incrível que pareça, se dera ao contrário. Em vez de acalmar, a população começou a aborrecer-se. Não raro vinha a notícia de alguém que espremera um maracujá sob o peso do sapato. Uns meninos os atiravam ao encontro do muro, espatifando-os. Outros maracujás, desta vez até enrugados e azedos, apareceram boiando no riacho.

Muitas pessoas já se enfastiavam de tanto vê-los. As emissoras de rádio, em edição extraordinária, orientavam o povo que tivesse moderação ao ingerir o suco, notadamente dos enrugados e azedos. E falava dos hospitais apinhadas de gente que passara mal por causa do enjoo que eles provocavam. Houve quem vomitasse ou mesmo desmaiasse. Dias depois, quando a população já estava dominando a ânsia de vômito ou a agonia do desmaio, quem ouvisse as informações nas entrelinhas, perceberia que estava sendo conduzido a ingerir somente o suco de maracujá, pois que não se encontrava o de outras frutas nos armazéns. Por outro lado, fora afixado na entrada do cipoal um aviso proibindo o contato com as lagartas pelo de veludo, que deveriam ser manipuladas por pessoas devidamente outorgadas. As flores agora não se firmavam nos caules, o chão sob o estaleiro estava forrado delas. Das frutas pequenas, a informação era que continuavam sendo vistas boiando no riacho, descendo as cachoeiras e estourando ao se chocarem nas pedras.

Um menino contou que achou um maracujá enorme, o maior enrugadão que já vira, mas quando ia colhê-lo, vira numa lagarta pelo de veludo, que cintilava como ouro e atraia pela maciez da textura. Encantado, colocou-a na palma da mão, mas a dor fora quase insuportável. Não sabia como certas pessoas as manipulavam, imunes à queimadura e até se deleitando ao contato suave dos seus pelos nas mãos. Mas ele só não chorou porque o seu pai lhe dissera que homem não chora, mas que o ardume da queimadura não era qualquer marmanjo que suportava. Sonhando em ser delas amigo e imaginando-as em seu domínio, chegou em casa levando uma. Quando contou o caso e a mostrou, falou-lhe a mãe:

– Devolve ela agora mesmo para o seu devido lugar! Não foi isso que te ensinei, traste.

Um dia quem olhasse para o céu logo ao raiar do sol podia ver que o tempo era de um matiz meio alaranjado, as nuvens carregadas das mesmas cores. Todo mundo contemplava aquele tempo deslumbrante, tão bonito que alguém logo falou:

– Desse jeito, vai chover suco de maracujá.

As pessoas que tinham o estômago mais fraco, com esse comentário que se propagou como fogo em época de seca, logo se viram tomadas de enjoo, em franco desmaio. Se uma chuva porventura despencasse, continuando por dias seguidos, os meninos com certeza iriam para a rua brincar na enxurrada alaranjada. Quando chegassem em casa, era castigo na certa, já ficavam avisados. Mas, para a infelicidade deles, no outro dia raiou um dia limpo, ensolarado. E assunto sobre maracujás evaporou-se por uns tempos, trazendo outras formas de alegria para os moradores da Fazenda Tubipirama. Com efeito, havia agora tempo para conversas sobre futebol e fofocas de novelas.

– Comadre, assistiu o capítulo de ontem?

– Se vi? E não perco o de hoje. Melhor do que essa lereia de maracujá, que já não aguento mais esse assunto, comadre.

Passados os maus pressentimentos, a atenção geral voltou-se para o sumiço do senhor Gentil Brado. Onde estaria o Executivo? Era a pergunta trivial por toda a Fazenda. Ninguém sabia ao certo. Corriam opiniões controversas sobre o seu paradeiro nas casas, nas ruas e praças. No sermão da missa o padre discorreu sobre o tema do abandono. Pessoas saiam do anonimato para opinar, mais para aparecer do que propriamente interessado no assunto. Palavras ao vento. Como os papéis não eram despachados a contento com este sumiço, o advogado Honorato Salvador fora procurado, mas qual não fora a surpresa ao vê-lo praticamente cego, tateando as paredes de sua sala a procura da sua grossa lente.

Um trabalhador chegou a dizer que esteve com o Executivo na calada da noite, o qual lhe pediu para que permanecessem pacificamente nos seus postos, que fora obrigado a beber muito suco de maracujá, que estava abatido, mas apareceria para dar uma satisfação a todos. Tivessem paciência. Mas as opiniões divergiam-se e supunha-se que os palpiteiros só queriam chamar a atenção dos que estavam realmente preocupados. Estes, de fato, receavam pelo atraso na irrigação e adubação da lavoura, visto já correr a notícia que isto poderia acontecer se ele não aparecesse. Mas, para o gáudio de muitos e desprezo de outros, numa ensolarada manhã o Executivo deu as caras, arrancando exclamações das pessoas:

– Nossa, vejam como está mais gordo, corado, e de cor alaranjada!

– E as rugas no canto dos olhos e no pescoço, que ele não tinha?!

E enquanto todos esperavam explicações, ele tergiversava para outros assuntos menos incômodos. Não era fácil se aproximar de sua pessoa, mas um peão se arriscou a se aproximar dele, pedindo-lhe explicações sobre a salvação da lavoura. Foi o suficiente para despertar nele uma outra pessoa de que não tinham conhecimento, de movimentos enraivecidos, que começou a atirar no pobre do peão os maracujás que levava nos bolsos. Alguém soltou uma expressão irônica, que mais o enfureceu:

– Deem-lhe suco de maracujá, para ele se acalmar!

Quando todos esperavam que o senhor Gentil Brado, o Executivo, retomasse a calma e os seus afazeres, eis que no outro dia uma carta de demissão fora encontrada sobre sua escrivaninha. Nela pedia desculpas por tudo, mas que iria adentrar de vez no cipoal, de onde era praticamente impossível se desvencilhar. Forças ocultas, das quais não podia tecer maiores comentários, o impediam.

Sobre as lagartas pelo de veludo explicou que elas não o incomodavam mais, estava vacinado e até as pegava nas mãos, deixando que subissem no seu corpo, passeassem por ele e se escondessem nos seus bolsos. Dizia que lhe proporcionavam uma coceira gostosa a textura e os pelos macios delas.   Concluiu dizendo que fizera de tudo para corresponder à expectativa de todos, mas uma vez transposto o cipoal e domesticado as lagartas não havia retorno. E que logo os donos da Fazenda enviariam outro nome para apreciação.

 

(Joaquim de Azevedo Machado , professor e escritor – [email protected])


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