Todo mundo copia todo mundo
Redação DM
Publicado em 21 de fevereiro de 2017 às 02:07 | Atualizado há 9 anosOriginal esta minha frase que é o título da crônica de hoje não acha? Não é, e é de um ridículo tolo se pretender alguma originalidade depois que Lavoisier soltou para as comunidades que “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, inclusive ele mesmo que não descobriu um único elemento, mas pegou as descobertas de outros e deu sentido. Tão por isso revolucionou a química.
Sem esquecer o nosso mago da comunicação, Chacrinha, para quem na “Na TV nada se cria, tudo se copia”. Ele próprio a caricatura da mistura de tudo.
Então, estamos entendidos.
Mas eu havia prometido a mim mesmo não entrar mais em polêmicas. Elas ficaram pobres e são usadas como instrumentos para ridicularizar, diminuir pessoas, inverter valores e eliminar a ideia da busca do mais próximo da verdade quando impossível encontrá-la diretamente.
Semana passada acompanhei um bate-boca infantil e inútil (até gente do meio acadêmico se envolveu sem atinar para o que estava por trás -intelectual não tem maldade política ou pelo menos deveria ter ao analisar no campo científico para não ver seus argumentos usados com finalidades menores) a propósito da indicação de Alexandre de Moraes à vaga aberta no Supremo Tribunal Federal. Parêntese. Não vou defendê-lo, mas apenas usar o gancho do momento para uma reflexão, em todos os aspectos muito pessoal e que sempre esteve atravessada na minha garganta.
Bastou Moraes ter o seu nome definido pelo presidente Michel Temer para logo ser acusado de plágio. Interessante que sua obra jurídica, “Direitos Humanos Fundamentais”, adotada por grande parte dos professores de Direito Constitucional, senão por todos -onde me incluo, sem esquecer as inúmeras citações de seus trabalhos em votos e argumentos feitas pelos seus futuros colegas no Supremo, remonta mais 20 anos e só agora “descobriram” a cópia. Se for por aí a oposição ao seu nome ela é suspeita. Nem entro na questão em seu mérito, porque a querela é unicamente política.
Não engulo nem mestrado nem doutorado dos últimos tempos (e põe tempos nisso). Pela razão óbvia de que para se ser mestre ou doutor o reconhecimento do título deve sair de uma tese defendida cuja conclusão aponte algum elemento de descoberta e não apenas achados extraídos de teses de outros. O que vejo hoje é cópia de cópias e nada se cria. Então, com vênias de estilo, condenar Alexandre de Moraes por citar em sua obra um jurista espanhol não sustenta uma crítica. Quer saber, as próprias monografias de conclusões de cursos nada mais são do que cansativas compilações, e nos damos por satisfeitos quando, pelo menos, o aluno leu o que copiou.
Chega de hipocrisia, gente!
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)