Tu és Pedro
Redação DM
Publicado em 12 de julho de 2016 às 02:49 | Atualizado há 10 anosCompareci à bela festa de lançamento de Tu és Pedro, de autoria do jornalista e acadêmico Hélio Rocha. O livro representa valiosa contribuição à História de Goiás e, em particular, ao conhecimento da biografia do notável homem público e líder político, Pedro Ludovico Teixeira. Assinale-se que o título da obra é um achado e a capa, assinada por Amaury Menezes, uma obra de arte.
O evento revestiu-se de merecido sucesso, dada a seriedade do trabalho do autor, sua trajetória profissional e os traços de sua personalidade que faz jus à admiração e à estima da sociedade goiana.
Foi como um mergulho no tempo. Ao lado de pessoas representativas do mundo artístico e literário, ali estavam personagens do velho e combativo PSD, o Partido Social Democrático, que dominou a política de Goiás por décadas.
Ascendendo ao poder na esteira da Revolução de 1930, Pedro Ludovico Teixeira detinha forte carisma pessoa. Era homem de estatura um pouco acima da mediana; esbelto, pele clara, cabelos cuidadosamente penteados, feições fortes e vincadas. Vestia-se com apuro, dando preferência aos ternos de linho branco, camisa social impecável, gravatas sóbrias.
Reconhecido pela capacidade de liderança, perfil autoritário e estrita honestidade pessoal, mesmo em ocasiões festivas mantinha postura algo distante. Não era grande orador, talvez porque apegado a certo rebuscamento de estilo; vez por outra, escorregava nos improvisos. Faz parte do anedotário político: durante um discurso no senado federal, foi desafiado a apresentar provas do que dizia. Respondendo ao aparte, prometeu: “Tragá-las-ei.” Oh! Não é sem motivo que as mesóclises ainda sejam matéria controversa!
Ao adentrar na pérgula que dá acesso ao belo Salão D. Gercina, lembrei-me do baile em que foi comemorada a posse de dr. Pedro no governo de Goiás, no longínquo despontar do ano de 1951. Eu tinha 20 anos e mudara-me há pouco tempo do Rio para Goiânia. Além de estudar e trabalhar,fazia parte da Federação das Bandeirantes do Brasil, espécie de escotismo para meninas e moças, voltado para temas educativos e sociais.
Embalada pela efervescência da então chamada “capital brotinho”, eu votara no político pessedista, influenciada também pela personalidade de sua esposa. Com efeito: d. Gercina nos convidara – a nós, bandeirantes – para colaborarmos em obras beneficentes de assistência à Santa Casa, bem como na distribuição de presentes de Natal para crianças pobres (não se falava “carentes”). Conhecendo-a de perto, pude apreciar sua postura generosa e dinâmica que muito me impressionou.
Era uma bela noite de verão. A festa começou nos salões e estendeu-se aos jardins palacianos, cuja beleza ora é lembrada por Hélio Rocha. Exigia-se traje “a rigor”, mas ninguém foi barrado por não o possuir; um terno azul-marinho passava despercebido aos olhos dos anfitriões. No calor das músicas e das danças, formaram-se cordões carnavalescos e adeus formalismo! A animação continuou até as sete da matina quando os últimos pares se foram, muita gente a pé, pois os carros eram caros e raros.
Ao longo do tempo, em muitos momentos voltei a reencontrar dr. Pedro e d. Gercina, sempre sob os holofotes do prestígio social e político. Acompanhei de perto o choque e os desdobramentos do assassinato do jornalista Haroldo Gurgel, expressão da intolerância e da violência que permeavam os embates entre partidos antagônicos, personificados, na época, pelo próprio PSD e pela UDN, a União Democrática Nacional.
No final da década de 1960, parlamentares oposicionistas foram cassados, dentre os quais o senador goiano, Pedro Ludovico Teixeira. Com a peculiar subserviência dos políticos em favor dos poderosos, houve um tempo em que somente velhos amigos o visitavam, dada sua condição de persona non grata ao regime militar.
Certa manhã de domingo, apareceu de surpresa em minha casa, no Setor Sul, o querido professor Venerando de Freitas Borges; ofereci-lhe um cafezinho e ele me convidou para irmos visitar dr. Pedro, que – em suas palavras – “estava muito sozinho”. E lá fomos nós: o primeiro prefeito e fiel amigo do fundador da cidade, ora no ostracismo; e esta escriba com as antenas ligadíssimas, na expectativa de um bate-papo com personagem tão ilustre.
O casal nos recebeu informalmente. No hall de entrada, um pequeno quadro retratava a cadeia de Rio Verde; d. Gercina mostrou-o, lembrando que, ali, seu pai e o dr. Pedro tinham ficado presos durante 14 dias. A conversa prosseguiu animada sobre os tempos iniciais da capital, as lutas e dificuldades com que se defrontaram os mudancistas, o sentimento de realização que lhes trazia o crescimento de Goiânia, na época com aproximadamente 300 mil habitantes.
Em outros domingos, repetimos a visita – e lamento não ter gravado as lembranças evocadas na voz dos anfitriões. Não havia celulares, nem smartfones, nada dessas geringonças que hoje perpetuam momentos os mais corriqueiros. Levar uma máquina fotográfica ou um gravador de fita parecia-me uma invasão de privacidade, quase uma descortesia; nem ousei pedir permissão para fazê-lo.
Haveria outros momentos a lembrar… mas fica para outra ocasião. Por hoje, renovo ao confrade Hélio Rocha meus parabéns e votos de sucesso.
(Lena Castello Branco, escritora,[email protected])