Um homem sincero
Redação DM
Publicado em 2 de setembro de 2016 às 02:51 | Atualizado há 10 anosAs pessoas têm tantas camadas que se torna difícil definir alguém com precisão tendo como referência cinco minutos de prosa. Seres humanos são complexos sob um manto de aparente simplicidade. Embora sejamos repletos de vícios e virtudes, cedo ou tarde algum traço físico ou de personalidade tende a se destacar. No caso do Marcelo, esse detalhe era a sinceridade.
As sutilizas da comunicação eram absolutamente ignoradas pelo Marcelo. Íntegro como é, não há outra opção que não seja a mais honesta e verdadeira sinceridade. Esse negócio de alisar malandro, de eufemismo, é pura bobagem. O que precisa ser dito, precisa ser dito. Ponto final. Se não gostar da verdade, não lhe peça a opinião.
– Marcelo, meu amor.
– E aí?
– Eu meu preparei todinha para você hoje.
– Bom, bom.
– Até cortei o cabelo.
– Bom, bom.
– O que você achou no novo corte?
– Não se preocupe. Tem conserto.
Não é maldade. Não é grosseria. Não é patada. Apenas a manifestação mais sincera do pensamento mais verdadeiro que se pode imaginar. Para o Marcelo, essa honestidade costuma lhe causar eventuais dores de cabeça. É, no fundo, um incompreendido.
– Grande Marcelão!
– E aí, velho?
– Continua firme no escritório?
– Firme e forte.
– Você ainda continua estudando para ser delegado?
– Estou agarrado aos estudos.
– Eu gostaria de convidá-lo a trabalhar comigo. Você toparia?
– Rola não, velho.
– Por quê?
– Porque você advoga na área criminal.
– Qual o problema? Você não quer ser delegado de polícia?
– Quero, mas não defendo bandido.
– E o direito à ampla defesa?
– Há outros advogados para isso.
– O cara não tem o direito de errar?
– Tem. E precisa pagar por isso.
A sinceridade cortante do Marcelo o deixa em algumas saias justas. Havia uma moça pela qual estava se engraçando. Decidiram se encontrar e ver qual era a de cada um. A química parece que bateu bem. Ela parecia animada. Ele, correspondia na mesma moeda. Beijaram-se. Trocaram telefones. Decidiram se ver no final de semana. Firmaram o encontro num parque bonito da cidade. Ela decidiu começar a prosa.
– Gostei de você, Marcelo.
– Bom, bom.
– Não é muito falante. Nem fica com muita frescura.
– Bom, bom.
– Sabe, curto homens diretos. Com pegada, sabe? Sem frescura.
– Isso, isso.
– Você tem uma qualidade tocante. Sua sinceridade é rara de se ver. Geralmente as pessoas ficam cheias de dedos para tratar de algum assunto. Você, não. É direto. Não alisa. Fala o que deve ser dito, na lata.
– Por aí, por aí.
– E você?
– Eu, eu?
– Você. O que tem a dizer sobre mim desde que começamos a nos envolver?
– Não pensei que você fosse tão fácil…
(Victor Hugo Lopes, jornalista)