Brasil

Um tanto de tudo

Redação DM

Publicado em 5 de fevereiro de 2016 às 01:01 | Atualizado há 10 anos

Herbert não se imaginava rico ou destinado a grandes ações, vivia sua vida no ritmo suave da descida, uma bicicleta, um barco, gangorra sem a subida… e não reclamava!

Nascido no interior e dotado de algum dinheiro herdado, o suficiente para viver, medianamente, bem durante uma vida comum, Herbert não se preocupava com trabalho – Oh! Não!, não era preguiçoso, longe disso, sempre procurava ter algo pra fazer, manter-se ocupado, apenas sabia não precisar de salário, portanto, não o procurava, porém estava diária e mensalmente envolvido em obras, consertos, estudos e qualquer coisa que o tirasse de casa ou de sua mente.

Herbert era feliz – ou acreditava que fosse –, a felicidade de quem não sonha nem respira!

Entretanto, não existe pecado encoberto ou por descobrir, estão todos catalogados minuciosamente e à disposição dos viventes a qualquer momento e um desses se apresentou a Herbert numa tarde morna do fim de novembro, chamava-se Deliá.

Deliá  era tudo que Herbert não precisava: dúvida, distração, angústia, era a volta da gangorra, a subida do morro, um caminho que ele nunca quis até o momento, mas que só conseguia pensar em percorrer agora.

Deliá. Mulher vivida em experiência. Curtida na dificuldade da criança e moça pobre. Sabia o significado de um peixe assado antes mesmo que estivesse no prato. Sua vida era um constante abastecer para a viagem, um ajuntar sem fim, medo do incerto e do futuro: quem tem passado de lágrima, cuida da próxima com muito ciúme.

Quando conheceu Herbert, ela percebeu a impressão que causou no mesmo instante, sabia-o fisgado e se riu contente consigo, agora era questão de conhecer quanto do seu futuro estaria garantido, quanta tristeza evitaria – era assim que raciocinava, não era má, apenas prática.

Praticidade que faltava em demasia a Herbert, nem bem a tinha cumprimentado e sua casa, propriedades, seu bolso, eram dela, assim como o coração e quaisquer coisas que ela pedisse ou ordenasse… Não se fazendo de antipática, Deliá apossou-se de tudo, prazerosamente.

Durante um tempo viveram felizes, crianças brincando, claro que H. era a criança, pois D. contabilizava.

Um belo dia Herbert não voltou para casa no horário regular depois de suas andanças, sempre vinha faminto e já acostumado por comida e carinho.

Ela não se surpreendeu, ao contrário, até gostou, seu entusiasmo pelo generoso parceiro já estava extinto e há semanas intentava fugir levando o quanto pudesse, logo, aproveitando a deixa inesperada, como um sinal do céu (ou do outro), juntou suas malas, todo o dinheiro e bens conquistados. Saindo pela porta aberta tão facilmente, foi-se.

Novamente era novembro, noite de novembro.

Por uma dessas coincidências que o destino sempre mantém em seus  profundos coletes, Deliá e H. se encontraram, um vinha esbaforido para o lar, a outra corria dele, não direi que se esbarraram na dobra de uma esquina ou caíram ao chão após o encontro imediato, não é preciso, nunca é tão preciso, apenas se viram, à distância mesmo, houve o reconhecimento e foram se falar.

Já disse que Herbert era inteligente?  Pois era!

Bastou um olhar para as malas prontas, o longo cabelo negro mal contido no laço, o perfume em excesso de um lado, a respiração forçada e entendeu tudo, sentiu-se menos abandonado que surpreso, nunca imaginara que um dia teria fim – de nenhum modo, muito menos desse.

– Quanto? Herbert perguntou – apenas isso, não queria mentiras como motivos, apenas saber quanto ela levava ou quanto cobrara por sua companhia.

Deliá, anestesiada com a crueza de seu ato, tão facilmente desmascarado, percebeu que seu Herbert. era diferente de outros, respondeu com simplicidade: – Um pouco de cada coisa, das joias, das roupas, do dinheiro, não tudo – ela assegurou. – Mas um pedaço bom de tudo!

– É pouco, poderia ter levado mais, volte amanhã para buscar o restante, não preciso dele, acrescentou um Herbert vazio de emoção.

Agradecida, mas envergonhada, Deliá rejeitou a oferta e partiu, quase triste, somente pensando no tempo que poderia viver livre da dúvida e do medo, se consolava – o hábito é um fiel companheiro.

Herbert seguiu para casa, aproveitou o jantar feito por ela (um gesto carinhoso – arrematou) e dormiu, dessa vez com muitos sonhos, algo mudara sua vida, estava feliz, verdadeiramente feliz, quem saberia quais os rumos diferentes lhe foram reservados para amanhã, até mesmo uma simples queda podia ser boa, ele finalmente havia nascido, aprendera ousar viver (e pagara pouco por isso, pensou ele – não era tão imprudente, afinal)!

 

(Olisomar Pires, escritor – olisoblog.com)

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