Brasil

Uma reflexão além dos resultados do Ideb 2015

Redação DM

Publicado em 23 de setembro de 2016 às 02:28 | Atualizado há 10 anos

Resultados como o do Ideb – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, 2015 (http://portal.inep.gov.br), entre muitos outros indicadores sobre o desempenho da educação de nossas crianças e jovens, são importantíssimos para provocar reflexões, debates e buscar alternativas. Os resultados do Ideb 2015 mostram de forma geral uma evolução nos índices dos municípios nos anos iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 5º). Já nos anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º), os índices não mostram evolução apesar de baterem a meta estabelecida e, no Ensino Médio a meta não foi alcançada e o índice permanece estagnado desde 2011. O Ensino Médio, por seus resultados, tanto nas redes pública como particular, merece uma atenção especial.

Que estes resultados nos levem a questionamentos que possam ir além de estratégias para obter uma melhor nota, atingir ou superar a meta. Que possam promover reflexões sobre como, de uma maneira mais ampla, podemos garantir a evolução constante nas somas dos vários indicadores. Não apenas as notas de português e matemática. O resultado do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos- portal.inep.gov.br) divulgado em 2014, colocou o Brasil em 38º lugar dentre 44, destacando a falta de preparo dos nossos jovens para resolução de problemas cotidianos.

A mais recente pesquisa realizada pela Fundação Lemmon: Projeto de Vida – O papel da escola na vida dos jovens (2015), conclui claramente a desconexão entre as habilidades e competências exigidas na vida e os conteúdos apresentados pela escola. A publicação do relatório 2013/2014 do Todos Pela Educação também identifica que as escolas não promovem o desenvolvimento de habilidades e conhecimento exigidos na vida adulta de nossos jovens, as habilidades socioemocionais: produtividade, trabalhar em equipe, curiosidade, foco e comprometimento.

Já há alguns anos, vários indicadores têm nos mostrado que precisamos avançar nas reflexões sobre as variáveis que podem nos direcionar para melhores resultados no nosso sistema educacional. Talvez devêssemos pensar em como tornar a escola atrativa para o aluno de forma que este seja o maior interessado em melhorar seu desempenho e seus resultados, mais do que governos, escolas e pais. Indivíduos interessados, preocupados e responsáveis por seu aprendizado, desenvolvimento e evolução se tornam agentes transformadores. Talvez o nosso modelo não ofereça aos nossos jovens a real preocupação com o seu desempenho, mas sim com um objetivo de curto prazo como uma nota ou uma aprovação.

Será que nossos jovens estão se preocupando e se responsabilizando por seu desempenho para seus projetos de vida? O enfoque talvez seja outro. O mercado está repleto de profissionais capacitados pelos seus currículos de graduação, pós-graduação e MBA, entre muitos outros, contudo, quantos destes profissionais estão realmente capacitados para executar as funções que seus currículos atestam? Acredito que nem todos.

A origem das universidades coorporativas nos mostra que mesmo com toda a formação acadêmica, muitos profissionais não têm a formação comportamental para o exercício da função, pois lhes falta o comportamento empreendedor (iniciativa, responsabilidade por suas escolhas, perseverança, comprometimento…). Nossos jovens precisam de um sistema educacional que os prepare para os desafios de um projeto de vida, autônomo, com realização de suas conquistas por seus méritos, que lhes dê autoconfiança de que em qualquer cenário eles serão capazes de pensar de forma inovadora, persistente, com direcionamento para obter os resultados esperados. Ter uma boa nota em português e matemática é imprescindível, e não apenas pela nota, mas para se ter a segurança da aptidão para realizar os cálculos na construção de um edifício, por exemplo, para escrever uma publicação, entre outras demandas da profissão ou da vida.

Entendo que estas preocupações são relevantes. Seria possível fazer diferente? Seria possível apresentar aos jovens uma escola interessante e desafiadora, uma escola que lhes dê oportunidades de vivenciar e avaliar suas escolhas, avaliar as consequências de suas atitudes, testar e analisar suas habilidades e competências, experimentar, arriscar? Seria possível fazer com que nossos jovens se motivassem para eles mesmos buscarem um melhor resultado e desempenho?

Algumas escolas pelo mundo têm provado que sim e se esforçam para melhorar neste desafio. Em matéria da VEJA (2015), sobre o excelente desempenho das escolas na Finlândia, destaca-se que em Genebra, na discussão para o currículo do Século XXI, foi consenso geral de que “a escola precisa dar lugar ao desenvolvimento de habilidades requeridas no mercado de trabalho, como resiliência, capacidade de produzir em equipe, comunicação, abertura ao risco e a criatividade”.

Precisamos avançar nestes questionamentos, refletir sobre o assunto, avaliar e cobrar da escola de nossos filhos mais do que conteúdos formatados para atender apenas a uma prova. Afinal, queremos que nossos filhos sigam muito além desta etapa e, prepará-los só até aí, me parece cruel. Existem inúmeras alternativas de projetos paralelos ou mesmo pontuais mudanças que escola pode promover no sentido de oportunizar aos seus alunos esta nova dimensão do aprendizado. Os modelos de sucesso e referência pelo mundo estão disponíveis para nos auxiliar com suas boas práticas. Mesmo pelo Brasil e em Goiás existem exemplos de avanço neste sentido, com sucesso comprovado. Vale muito refletir sobre o assunto!

 

(Marisa Brandão S. Martins, psicóloga e executiva da Associação Junior Achievement Goiás)

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