Vagalume tem tem
Redação DM
Publicado em 10 de setembro de 2016 às 01:31 | Atualizado há 10 anosAmigos. Por toda a vida, a gente tem tantos amigos. Os de infância são, sem dúvida, os que deixam mais saudades, sobretudo quando, por alguma razão, se afastam precocemente. A partida de um amiguinho é bem amarga, arranca lágrimas, provoca dias de verdadeira penúria, como uma amputação, causando a sensação de perda de parte de nós. Só quem passou, sabe. De todos os que tive, um marcou profundamente no dia que foi embora. Ebinho. Éramos carne e unha na escola, pelos quintais sem cercas e ruas cascalhadas, incontáveis peripécias e cumplicidades por toda banda. Nossas casas eram fundo a fundo. Nos dias sem aula, bem cedinho, subíamos no pé de manga para espreitar a cidade. Das grimpinhas, sentindo-nos perto das nuvens, apontávamos a prefeitura, a igreja, a torre e a caixa d’água. Chupando manga de escorrer entre os dedos e pingar na ponta do queixo, íamos lucubrando os lugares não identificados. É casa, não é casa. É venda, não é venda. Havia discordâncias, brigas não.
O dia de o destino cuidar de nos separar estava por vir.
Numa manhã de 1986, pipocos de foguetes e buzinaços me fizeram acordar, levantar e sair tropicando nos chinelos e cachorros, esparramados pelo quarto, para ver o que havia. Eu tinha sete anos. Perguntei mamãe o que estava acontecendo. Ela, ocupada, acendendo o fogareiro, com os olhos vermelhos de fumaça, não quis me dizer. Da porta dos fundos, meio tonteado pelo sono e pela indefinição, vi movimentações esquisitas lá adiante, na casa do Ebinho. Coisas empilhadas. Entra e sai de gente. Ele e seus irmãos, sob as orientações da mãe, iam caminhando de um lado para outro, trazendo badulaques para fora. Fui lá.
Antes de lhe perguntar, Ebinho, entusiasmado, num sorriso, veio me contar que iriam se mudar para uma casa deles. Onde?, eu quis saber urgente. Lá do outro lado, perto da Churrascaria do Gaúcho, ele respondeu e continuou a empreitada de entrar, pegar algo e trazer para fora. Na hora achei bacana, não houve abatimento .Ajudei a carregar latas, panelas e cadeiras. A alegria do meu amigo, minha alegria, sem vistas para a iminente ausência que prenunciava as horas e todo aquele procedimento. Mais tarde, cruzando a rodovia, fomos ver a casa deles, que ficara pronta às vésperas. Câmeras de TV, políticos e seus seguidores, empurra-empurra para ver o governador e o prefeito ajudarem a pôr as placas das casas ainda em construção. Entramos na casa do Ebinho, já pronta, e sua mãe ia apontando, dizendo sobre onde colocaria o quê, as camas, o fogão, a mesa, isso e aquilo. Em seguida, voltamos.
Somente quando o caminhão bufou em frente à casa do Ebinho para pegar a mudança foi que recaiu em nós um pouco do significado daquilo. A casa esvaziada, a gente se enchendo de saudade prematuramente. Um tipo de saudade dura de acabar.Ebinho estava indo embora no meio das grades de cama e pernas de mesa de ponta-cabeça acenando um tchau chocho. Eu, de cá, com mamãe atracada em meu braço para eu não sair correndo e subir na carroceria, dava um tchau ainda mais triste.
Bem de tardezinha, naquele momento que a noite estende vagarosamente o manto negro sobre a cidade, pesou ainda mais a ausência do meu amiguinho. Seria a hora de perseguir, adoidado, as luzinhas verdes na vastidão do pasto do Zé Bernardo. Quieto, sem ânimo, eu mirava a casa acolá silenciosa, tudo escuro, sem alaridos, barulhos de água na bacia nem gritos de meninos ou latidos de cachorro. Com os olhos perdidos, fiquei tempo sentado no chão, quem sabe ainda esperando ouvir Ebinho gritar: Pegar vagalume! Vem! Vagalume tem tem, seu pai tá aqui, sua mãe também!
Descobria, com isso, o sentido da palavra saudade.
– Vem pra dentro, menino!
(Hailton Correa, agente prisional, graduado em Letras pela UEG de Inhumas e escritor. Contato: [email protected])