Vivemos num País sem ontem nem amanhã
Redação DM
Publicado em 12 de maio de 2016 às 02:17 | Atualizado há 10 anosTrês advérbios são muito fortes na construção da nossa existencialidade: antigamente, atualmente, futuramente. Isso ocorre tanto na vida singular de cada um de nós quanto na vida de cada comunidade humana, para não dizer na própria história da humanidade. Há os que têm seu tesouro enterrado no passado e vivem do antigamente. Há os que vivem do aqui e do agora como quem esquece que uma ponte só se mantém quando liga duas margens. E há os que buscam uma hora feliz sempre adiada e que não chega nunca em toda a vida, como diria o poeta.
Neste sentido as datas são importantes sinais a cintilar no painel das lembranças: do que já se repete tradicionalmente, do que convém fazer ritualmente hoje e do que se deixará convenientemente para o futuro, como se a vida fosse uma eterna embromação. As empresas comerciais, interpretando essas circunstâncias, usam de uma invenção inteligente para a exploração sazonal das datas do calendário: vender flores no dia de finados, vender presentes no dia das mães e vender felicidades na época natalina. Nada a ver com os mortos nem com as matrizes familiares nem com o nascimento do Cristo filho de Deus, visto apenas como um membro da nobre família de Papai Noel.
Em outro contexto parecem ser mais felizes as comunidades primitivas, como dos indígenas, que vivem das tradições que ligam seu passado ao futuro, ou a civilizações antigas, como do Egito, que tudo construíram para a eternidade, como queriam os faraós, apesar da ameaça das intempéries destruidoras do futuro. Até hoje as culturas orientais, como da Índia, da China e do Japão, souberam manter o equilíbrio entre o passado e o presente, entre tradição e progresso, construindo seus sonhos do amanhã sem destruir seus valores milenares.
Aqui no ocidente e principalmente em países em construção como o Brasil, o presentismo é um desafio ao historicismo e ao futurismo, como no processo dialético enfrentado pela Itália. Que, como toda a Europa, está reconstruindo a sua síntese histórica. O Brasil é o país do presentismo, da improvisação, da emergência. Os governantes constróem uma estrada para durar apenas durante seu mandato. Os empresários (nacionais) tornam-se verdadeiros trapezistas fazendo cabriolas no balanço das oportunidades. O povo brasileiro vive da promessa de que a república é melhor do que o império assim como o império teria sido melhor do que a colônia portuguesa.
Vivemos num mundo de fatores culturais, sociais e econômicos, mas não de valores intelectuais, morais e espirituais. Somos agora uma colônia da globalização (uma aldeia global, na expressão de Mecluan) dominada pela força da mídia internacional inescrupulosa que faz a nossa cabeça para o hoje, programa nossas necessidades para o amanhã e joga o nosso passado no lixo do esquecimento. Somos um povo sem memória coletiva.
Nesse contexto das transformações episódicas, vivemos de revoluções, mas não de evolução, acreditando no mito de um progresso separado das tradições culturais, de uma utopia do futuro desgarrado do teto de uma construção histórica. Deixamos para trás as memórias sentimentais de João Miramar, como nos mostrava Oswaldo de Andrade, ou ao modo de um Macunaíma, o herói sem caráter de Mário de Andrade (já que somos a soma de três raças ainda sem idiossincrasia social) e nos tornamos meros tipos biônicos consumidores de enlatados das multinacionais.
Com essas reflexões o leitor (ou leitora) poderá tirar suas próprias conclusões a respeito de si mesmo, bem como da sociedade em que vive e do momento histórico que nós atravessamos como uma encruzilhada que se abre em três dimensões, entre passado, presente e futuro. Somos um país cujo povo restou massificado e que não soube construir bem seu presente nos alicerces do passado e agora não tem a segurança das promessas do futuro. Nessa odisséia que vivemos, façamos como o Ulisses de Homero que se fez amarrar ao mastro de um navio para não deixar-se levar pelo canto da sereia. Significa que devemos guiar-nos pela razão lógica e não nos deixarmos iludir pelas ilusões passageiras.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: evn_advocacia@hotmail.com)