Brasil

Zerar tudo e começar do zero

Redação DM

Publicado em 21 de junho de 2016 às 02:29 | Atualizado há 10 anos

Chega de hipocrisia! Ninguém, mas ninguém mesmo, no Brasil, em qualquer época, foi eleito para um cargo público sem financiamento de campanha eleitoral. Nesse bolo coloco também quem perdeu a eleição.

Com a conivência de todos! O eleitor, o juiz, o promotor de justiça, o bispo, o pastor, o pai de santo, a imprensa e demais representantes da espécie humana sabem que corre muito dinheiro, público e privado, dentro e fora de uma campanha eleitoral. Negar tal fato é esconder a céu aberto na calçada da praça pública os lados ativos e passivos desse financiamento, primeira porta aberta por onde entra a corrupção.

O costume, então, vem de longe. Não fora verdade, nem precisaria existir lei própria para regular o que hoje é mais conhecido como propina. Aliás, são inúmeras leis eleitorais casuísticas, repletas de regras contraditórias e de nenhuma clareza. Um cenário montado para se tentar dar legalidade ao que é moralmente ilegal. Sabe por quê? É impossível se explicar o que não tem explicação. E o curioso é que com prestação de contas e tudo. Uma farsa com o manto de legalidade.

No meu entender não faz diferença se dinheiro por dentro (declarado como ajuda de campanha) ou por fora (o conhecidíssimo caixa dois). As duas formas são imorais. A finalidade é comprar voto. Enriquecimento sem causa! O voto não é mercadoria. O voto é o único (eu disse único!) instrumento de se tentar dar ao Estado um gestor que trate a coisa pública como coisa do público. E de maneira nenhuma foi (e é) assim. O mais triste é que o dono do voto (o eleitor) sabe de tudo. Ou melhor, é, via de regra, cúmplice. E não me peça exemplo. Tudo são exemplos, na medida em que o voto é moeda de troca.

Ainda vejo a República preservada. Agora, o sistema de governo presidencialista, este, está podre. Tolice dos que pregam reformas dentro dele. O pau que nasce torto morre torto. Remendar calça velha é abrir outro buraco logo abaixo.

Uma única pergunta: quem dos que estão aí tem autoridade para, sequer, propor alguma coisa?

Quer saber, o caminho é zerar tudo e começar do zero.

Que fizeram de ti, Constituição de 1988?

 

(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)

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