Política & Justiça

“Não há pressupostos suficientes para o impeachment de Dilma”

Deputado federal João Campos não decidiu se irá concorrer nas eleições de 2016, mesmo que seu nome seja cogitado tanto em Goiânia quanto em Aparecida. Ele disse que não é o momento para decisões sem antes ouvir o governador Marconi Perillo

diario da manha

 

 

Em seu segundo mandato de deputado federal, o delegado de polícia e pastor João Campos (PSDB) é um dos mais polêmicos membros do Congresso e ocupou espaços significativos na mídia brasileira como protagonista do chamado projeto “cura-gay”, que mexeu com os ânimos dos defensores dos direitos humanos.

Como presidente da bancada parlamentar evangélica, João Campos defende três posições: defesa da vida desde a concepção (contra o aborto), da família tradicional e da laicidade do Estado, que tem a ver com a liberdade religiosa e pluralidade de culto.

O deputado tucano não sabe ainda se irá concorrer nas eleições de 2016, mesmo diante dos apelos de aliados tanto de Goiânia quanto de Aparecida. “Fico contente em ver meu nome cogitado para disputar a prefeitura das duas maiores cidades do Estado, mas só iremos tratar desse assunto, em 2016, após conversa com o governador Marconi Perillo.”

O parlamentar acredita que a crise econômica do governo Dilma afetou o governo de Marconi Perillo. Para ele, o governador tem adotado medidas para superar as “dificuldades administrativas”, o que, segundo ele, em pouco tempo, permitirão o retorno do crescimento da economia, novos investimentos e a retomada das obras de infraestrutura do Estado.

O deputado João Campos diz que, politicamente, percebe que há um ambiente para propor o impeachment da presidente Dilma Rousseff, mas, tecnicamente, não está convencido da existência dos pressupostos jurídicos para o impedimento. “O que se pode dizer que não há nada que configure prática de crime de responsabilidade da presidente Dilma Rousseff neste mandato, mas há um conjunto de ações, que ocorreram no mandato anterior, que influenciaram diretamente para o resultado da eleição presidencial.”

ENTREVISTA

DM – Deputado, o senhor pretende candidatar-se a prefeito de Goiânia ou de Aparecida?

João Campos -Confesso que esta pergunta me alegra, já que, de fato, eu seja um dos poucos nomes estimulados a disputar a prefeitura tanto de Goiânia quanto de Aparecida, isto porque tenho uma atividade política intensa nas duas cidades. Sinto, portanto, contente por ser estimulado a disputar um desses dois projetos. Não tomei ainda nenhuma decisão a respeito. Neste momento em que o governador Marconi Perillo enfrenta diversas dificuldades de gestão, não é correto se priorizar a pauta política. Tenho, portanto, a prudência de sobrestar esta pauta política. Não tratarei de eleições antes de ouvir o governador, saber o que ele está pensando, receber sua orientação. Afinal, somos do PSDB, do mesmo grupo político e vamos buscar uma solução harmoniosa.

 

DM – Não é sobrecarga política, não traz conflitos tocar duas pré-campanhas, tanto na Capital quanto em Aparecida?

João Campos – É possível. Agora, é preciso dizer que poderei não ser candidato a nenhuma das duas cidades. É importante participar dos processos, colaborar na definição dos nomes, colaborar nas propostas quer seja para Goiânia quer seja para Aparecida e ajudar aqueles que vierem a ser candidatos a ter um bom diálogo com a sociedade.

 

DM – Qual é a preferência do senhor: Goiânia ou Aparecida?

João Campos – Não tenho preferência, pois faço política nas duas cidades com muita dedicação.

 

DM – O senhor começou a carreira política no meio evangélico, mas sendo candidato a prefeito em Goiânia ou em Aparecida pretende fazê-lo de forma mais ampla, envolvendo outros segmentos da sociedade?

João Campos – A cada eleição que participo, eu busco agregar mais segmentos sociais e, evidentemente, assumindo compromissos no Parlamento com o conjunto da sociedade. Uma candidatura majoritária, aí sim, essa é que não pode ser vinculada apenas a um segmento da sociedade, sob pena de ela nascer fadada ao fracasso. O candidato majoritário, mais do que o proporcional, tem que ter capacidade de conversar com todos os segmentos organizados da sociedade.

 

DM – Sendo candidato a prefeito, em Goiânia ou em Aparecida, acredita que receberá votos do eleitor católico, sendo o senhor um evangélico?

João Campos – Não tenho dúvidas disso. E diria mais: o eleitor evangélico, católico, espírita tem afinidade com as minhas propostas políticas, principalmente aquelas voltadas para a área social. Eu tenho essa capacidade de diálogo com todos os segmentos religiosos e os demais segmentos organizados da sociedade. Tenho um bom diálogo com o Fórum Empresarial de Goiás, com o setor acadêmico. Não me preocupa a possibilidade de não dialogar com determinado segmento, porque já o faço.

 

DM – Na campanha eleitoral do ano passado, ocorreram alguns ruídos internos à campanha do PSDB, envolvendo o senhor e os também candidatos à Câmara Federal, pastor Fábio Sousa e o delegado Waldir Soares, ambos também eleitos deputados. Como está a relação política do senhor com eles?

João Campos – Excepcional. Graças a Deus, excepcional. Com o pastor Fábio Sousa, na reta final da campanha, houve uma manifestação dele, basicamente uma censura a um determinado procedimento meu. Posso dizer que houve um engano, da parte dele, pois não tive aquela conduta. Isso está superado. Com o delegado, colega Waldir Soares, ele fez algumas críticas a mim, depois das eleições do ano passado, dizendo que eu tinha o monopólio da segurança pública em Goiás. Posso dizer que nunca tive monopólio algum, mas sim a disposição de colaborar com a área da segurança pública em Goiás. Nunca tive a intenção de aparelhar a segurança pública com cargos que fossem meus. A maior prova disso é que os atuais comandos da segurança pública não são indicações minhas. O governador Marconi Perillo teve ampla liberdade para nomear quem quisesse. Tenho, portanto, um ótimo relacionamento não só com os dois colegas, mas, também, com toda a bancada federal do PSDB de Goiás, formada por seis parlamentares.

 

DM – Como o senhor avalia esse momento de dificuldades vivido pelo governo Marconi?

João Campos – Vejo essa situação com preocupação, porque a sociedade tem demandas que não podem esperar. Quando o Estado, em razão de um momento, de uma crise, perde a capacidade de responder, de imediato, o prejuízo não é da classe política e sim da própria sociedade. Daí a minha crença de que essas medidas adotadas pelo governo Marconi, de contenção de gastos, cortes de despesas e, também, por parte da Secretaria da Fazenda de fomento ao crescimento das receitas, da arrecadação, isso me dá muitas esperanças, em um tempo mais breve do que se imagina, que o Estado possa retomar sua condição de fazer novos investimentos e de responder à sociedade.

 

DM – A crise econômica vivida pelo País afetou, de forma impactante, o Estado de Goiás?

João Campos – Não tenho dúvida disso. Temos dados que confirmam que o aumento dos índices de desemprego aumentam não apenas em Goiás como também no País, porque a crise se generalizou. Não temos crise num Estado e no outro não. Isso não ocorre assim. Em razão das omissões do governo federal, a crise se alastrou pelo conjunto do País.

 

DM – O PSDB nacional deve propor o impeachment de Dilma Rousseff, em contrapartida, o governador Marconi Perillo foi o primeiro tucano a se posicionar contra o afastamento da presidente da República. Qual é a posição do senhor?

João Campos -Politicamente, percebo que há todo um ambiente para propor o impeachment da presidente Dilma Rousseff, mas, tecnicamente, pois tenho formação jurídica, não estou inteiramente convencido de que tenhamos presentes todos os pressupostos para o impedimento. Nisso é que reside a dúvida. E é nesse ponto jurídico que, além do governador Marconi Perillo, senador José Serra e o ex-presidente Fernando Henrique se posicionaram. Estou acompanhando a movimentação da bancada federal do PSDB e tenho concordado que as circunstâncias políticas, todas concorrem para o impeachment. As pedalas fiscais, constatadas pelo Tribunal de Contas da União, estão sendo objetos de estudos da área jurídica do PSDB. O que se pode dizer que não há nada que configure prática de crime de responsabilidade da presidente Dilma Rousseff neste mandato, mas há um conjunto de ações que ocorreram no mandato anterior que influencia diretamente para o resultado da eleição presidencial.

 

DM – As bancadas BBBs – bala, boi e bíblia – tentam controlar a pauta do Congresso Nacional. Como evangélico, como o senhor vê essa atuação desses três blocos?

João Campos (risos) – Acho que essa abordagem corresponde mais a uma sugestão de atuação conjunta do que a ação que estejam sendo praticadas no Congresso Nacional. É uma sugestão para que nós devemos conversar entre nós e naquilo que for possível ser convergente, devemos atuar de forma conjunta. A verdade é que não estávamos fazendo esse diálogo. E aí, setores da imprensa começaram a fazer essa abordagem de que as bancadas da bala, do boi e da Bíblia estão articulando em conjunto para conduzir a pauta do Congresso. Lamentavelmente é uma forma até pejorativa de abordar o assunto, mas que acabou aparecendo como uma ideia, uma sugestão. Na política, no Parlamento, em todos os setores da sociedade é preciso exercer a capacidade de diálogo, de agregar pessoas e de convergir para o convencimento de suas teses. As bancadas evangélicas e da segurança pública têm muita afinidades na minha própria pessoa, que sou presidente de uma e vice-presidente de outra. Modéstia à parte, sou reconhecido com um dos líderes da área de segurança pública no Congresso Nacional. Um diálogo com a bancada do agronegócio, nesta pespectiva, nunca fizemos. Achei boa a ideia da unificação de atuação em conjunto das bancadas BBBs.

 

DM – Quais são as bandeiras da bancada evangélica no Congresso Nacional?

João Campos – A defesa da vida desde a concepção,  da família tradicional e da laicidade do Estado, que tem a ver com a liberdade religiosa e pluralidade de culto.

 

DM – O senhor é favorável a que se coloque o nome de Deus na Constituição?

João Campos – Eu acredito que todo o poder emana de Deus. Acredito também que incluir o nome de Deus na Constituição, como deseja o deputado Cabo Daciolo, do Rio de Janeiro, não é o caminho, pois não se trata de matéria do Legislativo. Trata-se de um tema religioso, espiritual e não do Legislativo.

 

DM – O debate emocional, ocorrido em relação ao projeto “cura-gay”, de autoria do senhor, está superado no Congresso Nacional?

João Campos – Esse tema não está superado, porque o governo federal continua agindo em contramão ao que deseja a sociedade brasileira. Este ano, por exemplo, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos adotou duas resoluções e uma delas dispõe que o aluno do ensino fundamental e médio, querendo assumir a identidade de gênero, poderá fazê-lo sem consulta aos responsáveis que, normalmente, são os pais. Em assumindo a identidade de gênero, ele poderá usar o uniforme que quiser, um garoto que assume uma identidade de garota. Ele poderá, portanto, usar o banheiro que quiser. Esse medida é um absurdo, porque os pais não foram consultados, os alunos não foram consultados. Como é que o governo adota uma medida dessa? Imaginemos que foi um garoto que assumiu a identidade de gênero feminino e que foi usar o banheiro das mulheres e lá assediou, constrangeu, violentou e de quem é a responsabilidade? Como é que fica isso? Isso não pode ser decidido assim, unilateralmente. Acho até que poderia se ter exigido a construção de um terceiro banheiro nas escolas para quem é do segmento LGVT. Agora, impor isso, para o constrangimento dos demais alunos, me parece algo descabido. Tivemos que agir e apresentamos uma proposta de decreto legislativo dizendo que, se aprovada a resolução da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, perderia o efeito. Não há nenhum comportamento homofóbico, preconceituoso ou discriminatório. Queremos uma política de direitos humanos decente. Que o governo, ao adotar políticas de direitos humanos, faça para minorias de forma igualitária e não para apenas privilegiar uma minoria. O que o governo federal faz é não priorizar as minorias da sociedade, mas apenas uma minoria, a chamada LGVT. O governo federal não tem uma política, por exemplo, para os ciganos, para moradores de rua, enfim, para outras minorias do País.

 

“Não tratarei de eleições antes de ouvir o governador, saber o que ele está pensando, receber sua orientação. Afinal, somos do PSDB, do mesmo grupo político e vamos buscar uma solução harmoniosa”

 

“Indices de desemprego aumentam não apenas em Goiás Não temos crise num Estado e no outro não. Em razão das omissões do governo federal, a crise se alastrou pelo conjunto do País”

 

“Acredito também que incluir o nome de Deus na Constituição, como deseja o deputado Cabo Daciolo, do Rio de Janeiro, não é o caminho, pois não se trata de matéria do Legislativo”

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