Política & Justiça

Majoritárias: Resultado das eleições OAB-GO ensina a entender eleitorado

Vitória de Rafael Lara ocorre diante acertos de todos os demais candidatos; mais do que marketing, qualquer disputa depende da compreensão da teoria do voto

diario da manha

O resultado das eleições da OAB-GO são premonitórias para o que pode ocorrer em 2022 na disputa ao governo de Goiás e presidência da República. Não se trata do candidato x ou y ou mesmo das teses propostas, mas na hipótese de como a teoria política das eleições raramente costuma falhar.
Premissas eleitorais são retiradas de conjuntos teóricos e numéricos montados para pensar a comunicação política e a articulação de grupos. São cânones eleitorais antecipados por autores como Paul Lazarsfeld, Iris Young, David Ryden e Wilson Gomes: 1) a aprovação de um mandato motiva o subsequente; 2) a reprovação de um mandato contamina o novo candidato; 3) a comunicação política pode ser eficiente e ainda assim o candidato pode perder a disputa.
Nas eleições da OAB-GO, o candidato Rafael Lara, vencedor do pleito, teve todos ingredientes para a vitória – mas o principal é o prestígio e a aprovação do atual presidente, Lúcio Flávio, com aceitação de 70% dos advogados goianos, conforme divulgado antes do jogo começar. Prestígio por conta do contentamento – sensação mental de felicidade com um estado de coisas. Por isso uma regra de ouro nas disputas majoritárias é a aprovação do mandato – esta felicidade com o líder atual decide votos. Nas eleições de 2018 para o governo de Goiás, o candidato governista lutava contra uma conta insanável: sua gestão detinha 19% de aprovação. Ele pontuava 17% nas pesquisas para governador – resultado insuficiente para vencer. Na reta final, o candidato governista ficou em terceiro lugar com 13%, encolhendo ainda mais em relação ao que se avaliava do governo. O patamar mínimo para pleitear uma reeleição é mais do que 40%. Em resumo: os números revelaram antes a derrota em Goiás.
É o que ocorreu nas eleições da OAB-GO. Com grande aprovação de Lúcio, Rafael Lara conseguiu manter-se na disputa e vencer o oponente com 5% de margem.
E só não foi maior porque dois dos candidatos – que ficaram em terceiro e quarto lugar – levaram votos de admiradores de Lúcio Flávio. Ou seja, os votos adquiriram duas ordens: de eleitores que aprovam Lúcio, mas que votariam no candidato oposto, seja por sociabilidade, interesse pessoal, amizade ou pauta.
A candidata Valentina Jungmann foi a mais eficiente e presente nas redes sociais, teve bom desempenho nos debates, articulou com demais candidatos, atraindo adesões, mas ainda assim não superou a faixa mais importante de uma disputa majoritária: a satisfação do eleitor com o modelo vigente.
Valentina, com seu conteúdo digital fundado na linguagem jovem, renovou o debate e sublinhou a importância das redes.
A mesma regra vale para o candidato Rodolfo Mota, que demonstrou força em seus argumentos durante os debates, estruturou uma campanha cara e coesa, mas que não conseguiu se impor nas urnas. Nas redes e imprensa foi menos presente, mas estava nas ruas e nos melhores momentos dos debates.
Coube a Pedro Paulo de Medeiros reunir o bloco de votos oposicionistas, em grande maioria composto por advogados de grupos que perderam o poder da OAB-GO. São votos batizados de oposição: ainda que aprovassem a gestão de Lúcio, declarariam o contrário e votariam no opositor.
J. Guilhon Albuquerque estudou o voto ao candidato por oposição aos demais, antevendo que na maioria das vezes ele conseguirá uma quantidade relativa de votos em uma disputa normal. Mas é necessário mais do que isso.
A campanha de Pedro Paulo foi impecável na estrutura, comunicação e até mesmo nas escolhas temáticas – como o voto dos inadimplentes, ainda que a tendência era de que tal proposta não se concretizasse. Faltaram votos na urna de duas espécies: expectativa de desempenho e identificação.
A eleição da OAB-GO logo no início indicou que a disputa seria um xadrez de muitos movimentos.

Voto vingança
Diferente do que ocorreu em 2018 no Brasil, onde se observava campo para candidaturas oposicionistas, já que o eleitorado estava numericamente insastifeito: a gestão de Michel Temer teve, por exemplo, uma aprovação de apenas 4% nos meses finais!
Em um cenário deste, surgiram dois votos dominantes na disputa: o voto de oposição, dado ao PT, e o voto de vingança.

Jair Bolsonaro reúne diversas modalidades de apoios, mas sobressai o voto de direita e de vingança/ Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil


Este último é o mesmo que elegeu Jair Bolsonaro e levou para o terceiro lugar nas eleições do Chile, na última semana, Franco Parisi, com 12,9%, um economista anti-política que fez campanha nos EUA. Lá, o voto de vingança, como no Brasil, deseja se ‘vingar’ das instituições, corrupção e ineficiência do serviço público. É um voto indignado, incalculável e imprevisível – dificilmente se repete.


O que cada candidato mostrou

Valentina Jungmann

Candidata conseguiu inovar ao ser a primeira mulher a disputar as eleições da OAB. Dominou as redes sociais, inovou em linguagens jovens (Instagram, vídeos, etc) e foi a única a conseguir articular e unir chapas, liderada por Julio Meirelles.

Rodolfo Mota

Candidatura de fôlego. O ex-presidente da Casag teve grande estrutura distribuída pelo Estado. Foi o melhor e mais preparado nos debates, com discurso na ponta da língua.

Pedro Paulo

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Veterano na disputa, apresentou talvez a maior estrutura da campanha. Teve grande articulação na imprensa, cabos eleitorais, eventos com a advocacia.

Rafael Lara
O candidato vencedor teve grande estrutura e articulação, mas herdou, de fato, a imagem de Lúcio Flávio, presidente cuja narrativa que fica é de organizar a OAB sucateada que herdou – esta passagem é ainda forte e influencia parcela da advocacia que viu a OAB nas páginas policiais.

Espécies gerais de votos

O voto é objeto de várias teorias, desde Cícero, na Roma antiga, até nos debates contemporâneos. Significa o ato de acreditar, de conceder, entregar a fé e confiança.
As estratégias eleitorais são essenciais para conquistá-los. A própria história das eleições serve para compreender como o voto se revela.
A expressão ‘candidato’ é a comprovação desta estratégia. Significa túnicas brancas ou cândidas. O candidato, para ser visto, deveria se diferenciar dos demais e utilizar a túnica branca.
O discurso era outra técnica para sedução. Vem daí o voto emotivo. É o voto volátil. Completamente instável, pois pode modificar com maior reflexão do eleitor. É um voto conquistado por frases ditas, por ideologias semelhantes às apresentadas pelo eleitor, por representar algo que mexe internamente com as massas. O voto emotivo é custo zero, mas costuma não ser fiel. A teoria da redundância diz que eleitor se enjoa dos políticos que vota. Daí que o eleitor do voto emotivo se ‘apaixona’ pelo candidato, mas costuma ignorá-lo se ele não surpreende. O político carismático, modelo proposto pelo sociólogo Max Weber, se enquadra neste perfil em sua primeira eleição.
Exemplos: Marina Silva, Lula, Iris Rezende (primeiro mandato como prefeito), Túlio Maravilha, Delegado Waldir, etc.
O voto de favor é o mais antigo. É a oferta de algo antes da votação, seja um cargo público, um serviço, um auxílio, ou mesmo a compra de votos – o que é bastante comum, a ponto de se punir com a cassação do mandato. O candidato tem uma forte relação com eleitor, pois existe uma interação de dependência, que se perpetua no tempo. Uma variação deste voto é o voto ‘evangélico’, em que lideranças de igreja usam a Bíblia e discurso do campo religioso para intimidar quem não vota conforme a autoridade. O voto é de favor, dado a um determinado político, que deve oferecer algum benefício ao religioso.
Exemplos: todos candidatos que atuam com comissionados, políticos atuantes em segmentos (médicos, enfermeiros, advogados, etc), etc.
O voto de expectativa se baseia na apresentação de alguma proposta. É mais depurado do que o voto de favor, pois o eleitor pretende ver alguma mudança proposta pelo candidato. É um dos votos mais perseguidos, mas o mais crítico também. É o nicho do voto nulo, caso uma sequência de políticos não canalize os anseios do eleitor. Ou se converte no voto de vingança. Geralmente, é o voto da mudança, aliado à realização do que foi prometido.

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